quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O QUINTO SUSPEITO - RUBEM FONSECA



Rubem Fonseca  
É um contista, romancista, ensaísta e roteirista brasileiro
Fonte: Livro O romance morreu. Companhia das Letras, 2007, (pg. 157).
                         
Hoje publico aqui O QUINTO SUSPEITO, uma das crônicas mais linda do Rubem Fonseca.


            Costumo usar, alternadamente, dois relógios de pulso. O que prefiro, por motivos sentimentais, mostra apenas o dia do mês. O outro, além do dia do mês, tem o dia da semana. Desde criança nunca lembro, sem fazer algum esforço mnemônico, qual é o dia do mês. Nos últimos anos, trabalhando apenas em casa, também não consigo recordar, sem mobilizar minha memória, o dia da semana.
Rotineiramente, depois de usar algum tempo o relógio que mostra apenas o dia do mês, cansado de ficar verificando nos meios disponíveis qual o dia que está transcorrendo ­– é sábado ou domingo? –, volto a usar o relógio que informa também o dia da semana.
Ponho sempre o relógio que não estou usando sobre uma mesinha da sala. Segunda-feira, depois de usar um dos relógios por vários dias, fui trocá-lo pelo que mostra, além do dia do mês, o dia da semana, mas ele não estava na mesinha. Eu tinha certeza absoluta de que o vira naquele local. Alguém tinha tirado o relógio dali. A moça que trabalha na minha casa, ao ser indagada, disse que não havia mexido no relógio. Assim como os meus filhos, que constantemente me visitam, ela está acima de qualquer suspeita. Mas eu tinha quatro suspeitos, pessoas que haviam estado naquela sala nos últimos dias.
O primeiro suspeito: o técnico que veio consertar as cortinas. Ele possuía uma cara patibular, de alguém que está tramando um crime ou sofrendo de um tormentoso remorso. Só que, desde Lombroso (1835-1909), está totalmente desmoralizada a tentativa de descobrir alguma predisposição à delinquência analisando as características físicas do indivíduo. Não existem caras honestas se contrapondo a caras desonestas. Existem, apenas, convencionalmente, caras feias e caras bonitas. Mas podia ser ele.
O segundo suspeito: o eletricista. Seu olhar era esquivo, como o de um bicho em situação de perigo. Olhava de esguelha, fingindo que não estava observando coisas e pessoas à sua volta. Quando eu me aproximava, ele parava de trabalhar e ficava contraído, como se fosse dar um bote ou fugir. Eu tinha de reconhecer, porém, que se ele não agisse com cautela corria o risco de levar um choque elétrico. Mas podia ser ele.
O terceiro suspeito: o relojoeiro que veio consertar o relógio da parede, uma velha peça mecânica em forma de oito que fica sobre a mesinha onde estava o relógio de pulso. Era um homem gordo, de aspecto bonachão. Costumamos achar todos os gordos felizes, confiáveis o bondosos. – ao contrário dos magros, que desde Shakespeare são vistos como famintos e perigosos. Mas esse é mais um embuste da falsa ciência conhecida como fisiognomonia. (Quem estiver interessado nessa “arte de conhecer o homem segundo as feições do rosto.”– e parece que muita gente ainda acredita nessa falácia do século XVIII –, que leia Arte de estudar a fisionomia, de J.K. Lavater. É um livro interessante.) O relojoeiro era gordo e bonachão, mas parecia ser ele.
O quarto suspeito: o rapaz da farmácia, que, para entregar-me uma encomenda no local da casa onde eu estava trabalhando, passou pela mesinha em que estava o relógio. Ele ficava olhando em volta, alerta, astuto, como um desses assaltantes de rua. Nem a paisagem que se via da janela escapou do seu olhar curioso. Podia ser ele.
Eu tinha uma lista de quatro pessoas com oportunidade de cometer aquele crime. A questão era descobrir o delinquente. Então me lembrei das aulas de Direito penal, na faculdade de Direito, das nossas discussões de que não havia delinquentes, mas indivíduos anti-sociais, nem crimes, mas fatos indicativos da anti-sociabilidade do autor. E lembrei-me também do brocardo (estou citando de memória): “O testemunho é a prostituta das provas”, testemunho incluindo as declarações da vítima e a confissão de autoria.
Para provar essa teoria de que a prova testemunhal não é fidedigna, foram feitas muitas pesquisas curiosas. Estas duas, entre várias, são clássicas:
Uma mulher vestida de vermelho, com braço numa tipóia, atravessa uma sala onde estão várias pessoas e desaparece. Mais tarde os pesquisadores perguntam aos presentes se viram uma mulher passar pela sala e como ela estava vestida. Conforme as respostas – alguns nem sequer a viram –,  ela estava de preto, cinza, bege e uma pessoa disse que a viu passar um homem vestido de vermelho. O braço na tipóia passou totalmente despercebido.
Um professor de Direito e dois alunos criam este ato dramático: os dois alunos, no meio da aula, de acordo com rigorosa marcação teatral, começam uma violenta discussão e um deles, de acordo com o script, saca um revólver e atira no outro, que também está armado e revida atirando por sua vez. Os dois caem ao chão feridos e pretensamente são transportados para um hospital. O professor pede que os alunos permaneçam na sala para que a polícia tome conhecimento exato do que aconteceu. Os alunos são ouvido em separado. Nenhum depoimento coincide. A iniciativa da agressão ora é atribuída a um, ora outro; as palavras ensaiadas que os brigões trocaram na discussão são reproduzidas de maneira diferente e muitas são inventadas pelos depoentes.
Ou seja: o testemunho é mesmo a prostituta das provas. Caberia aqui uma discussão filosófica sobre os motivos pelos quais o mesmo objeto ou situação é percebido de maneira diferente por pessoas diferentes, mas ficaria muito longo. A questão é que, depois de pensar isso tudo, concluí que até então eu havia deixado de lado um quinto suspeito.
O quinto suspeito era eu. O meu testemunho, a minha certeza absoluta de que havia visto o relógio de pulso na mesinha talvez não expressasse a verdade. Então comecei a solucionar o mistério partindo do quinto suspeito. E isso não apenas foi confortável espiritualmente, pois desconfiar dos outros é muito desagradável, como acabou resolvendo a charada: eu havia inconscientemente, por algum motivo, deixado de seguir a rotina e posto o relógio em outro local. Minha certeza de que o vira na mesinha não passara de mais um equívoco testemunhal. Estou com o relógio no pulso, neste momento. Sábado, dia 3.


                           Fonte: Livro O romance morreu. Companhia das Letras, 2007, (pg. 157).
                         

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