Foto: Reprodução

Faltam os móveis. A casa ficará para trás, o quintal modificará, os muros
virarão paredes, mas a rua será a mesma. As árvores crescerão, os postes serão
trocados. O tempo dirá. A rua quando receber o asfalto será uma avenida dentro
de mim. Por ali passarão as lembranças, as saudades, a vida. Dizem que quando
as pessoas crescem sentem pesares. Eu carrego uma rua dentro de mim.
O céu, cinzento todas as manhãs. À tarde o neon, inconfundível. Tudo
muda. Mesmo sem buscar um novo lugar. O sol nunca dorme. Os dias aqui são
claros enquanto a noite passeia em outros lugares. Aqui parece amanhecer mais
tarde. Mesmo que eu não perceba, o sol peleja com o nevoeiro.
Vejo as nuvens se desenhando, obedecendo ao sol.
— Mariah, deixa esse diário um pouco. Venha ver uma coisa!
— Espere. Falta uma frase... Mas... Que coisa?
— Venha ver.
— Tá bem, tô indo.
Os minutos avançam e a minha espera se desespera.
— Olha, você tá perdendo...
— Mas que insistência! Me deixa em paz. – Mariah respondeu se ajeitando e
ajuntando as pernas. O diário a roubava de mim.
A minha poltrona é a número 12. Doze também é a rua que não sai de mim.
Tenho doze anos e já são 12h00min. Juntando o meu nome com o dela, doze letras.
Mariah e Antony. Sou nascido aos doze de dezembro, ela, vinte e um do mesmo
mês. Há um instante na vida em que tudo fica exato? Perfeito pelo menos duas
vezes ao dia? Não vou terminar o meu prato com doze garfadas. Poderia até ser
assim, mas no restaurante em que me encontro há mais de quinze pessoas. Nem tudo
é exato. Se fosse, que graça teria?
A brincadeira de esconde-esconde, ela se esconde junto a mim. Vejo nossas
sombras unidas. A lua revela nossos desejos, tímidos.
— O que você queria que eu visse?
— Não importa mais.
— Ah! Importa, sim.
— Não sei não, hein?!?!
— Não faça essa cara, eu não gosto.
O ônibus pára. Um cara com feições trogloditas ocupa a poltrona do outro
lado. Ele vira para guardar a sua bolsa no bagageiro acima. Percebo que há um
número 12 na sua camiseta.
— Sim, jogo vôlei.
— Mas eu não perguntei.
— Mas ia perguntar.
— Sei não, hein...
— Então por que me encarou?
— Nada...
Encolhi na poltrona.
Doze.
Caminhamos pela estrada. Ela tem um diário e canetas coloridas. Com ambas
as mãos os prende na altura dos seios. Mergulho num silêncio que é só meu. Ela
fala compensando a falta de palavras. A sua voz não cobre o crepitar dos seus
passos dissolvendo o cascalho.
— É aquela ali? – Disse apontando um ipê florido.
— Não.
— Falta muito?
— Alguns passos.
— Tá me deixando nervosa.
— Tô não. Você é nervosa sempre.
— Uh! Tô falando da ansiedade.
— Mas também é impaciente.
— Você que é impaciente... Não espera quando me demoro aos seus pedidos.
Meu pai conversa com o troglodita, mas apenas resmunga. Escuto um “sei”,
e “runrum”. Meu pai é um músico. Não fala muito. Quando está ausente fica me
ligando; quando presente, fica ausente e não liga.
— Amoras!
— Eu conheço amoras. – Ela diz. Falando mais com as mãos.
— Sei que conhece, mas eu quis dizer.
— Você fala como se eu não soubesse.
— Você nunca tá pronta...
— Pronta pra quê?
— Pras coisas que eu quero lhe mostrar.
— Tá vendo, já ficou irritado.
— Olha como você tá falando...
— Tudo bem. Desculpe. – Ela se afasta alguns passos e fica a ver as
colinas. Os outros foram para outras árvores. Os pássaros, nossa companhia.
Percebo o vento em seus cabelos. Eles se movem como a minha certeza de que não
vou conseguir ler o livro escolhido por ela.
O ônibus pára novamente. Troglodita saúda o meu pai. Doze. Percebo quando
descem os seus amigos. Frente a um ginásio. Ouço a sua voz ecoando em minha
cabeça. “Sim, jogo vôlei”. Precisava dizer? Não pasmem. Contei mentalmente as
doze letras.
— Por que ficamos com o pé de amoras?
— Saiu no sorteio. – Falo já esperando uma ofensa.
— Não gosto de amoreiras, mas percebo que só nós temos a árvore
diferente.
Não havia observado. Lancei um olhar de fazendeiro observando o gado. O
meu melhor amigo ficou com um dos pés de jambo, os demais se contentaram com as
mangueiras.
Para pôr fim à guerra dos sexos, uma professora quis aproximar os meninos
das meninas antes que houvesse o pior. Foram selecionados os brigões, doze.
Seis casais. Cada menino teria que escolher uma árvore. As meninas escolheram
os meninos. – Se essa tarefa fosse dos meninos? Homem não sabe escolher com o coração,
mas com os olhos, disse a psicóloga batendo as mãos nos quadris. Depois de
escolhida a primeira etapa, no sorteio, as meninas escolheriam um livro
romântico para os meninos e os meninos teriam que escolher um que falasse de
futebol. Valendo pontos e a permanência na escola, teríamos que sentar juntos
embaixo de uma árvore, trocar ideias sobre o que fora lido e fazer um
relatório.
Vejo a rodoviária. Chegamos. Meu pai alcança primeiro a guitarra. A mala
logo a seguir. Disse para que eu cuidasse das minhas coisas. Com doze anos já
com malas para cuidar. Meu pai precisa de mim. A minha tia Carla veio nos
receber no portão. Abraçou-me e, com um beijo, disse que eu já estava um
hominho. Fiquei feliz pelo “hominho”. Quando entramos lancei um olhar de adaptação
por toda a casa. Meu olhar me fez bem. Teria aquela magnífica casa para morar e
uma linda tia que gostava de mim. O meu pai não parava em casa, compromissos da
banda. A minha mãe casou-se e o meu padrasto não me aceitava. Fui morar com o
meu pai, que morava em lugar nenhum.
— Obrigado, Mariah. – Disse, avaliando o livro.
— Espero que goste. – Ela é linda, pensei. Qualquer coisa que viesse dela
eu ia gostar.
— Espero que você goste desse aí também.
— Sim.
Jeito descontraído, um olhar que muda um sentimento e falar de quem está
ansioso. Leio Mariah assim. Ela se encosta para ler. Os cabelos cobrem o seu
rosto. No momento em que desejei tantas coisas, quis ser um desenhista para
traçar todos os detalhes dela lendo um livro e recostada em uma árvore. Fotografia
é muito urgente, uma câmera poderia ocultar detalhes que os meus olhos queriam
levemente rabiscar.
Os três primeiros dias de aulas meu pai me deixou na escola. Voltava de
Van.
Antes que o relógio marcasse meio-dia, vi a minha tia conversando com a vizinha.
Relutei a ir com a vizinha para o colégio. Meu pai não estava na cidade e a
minha tia não podia, habilitação vencida. A relutância durou até notar que a
filha da vizinha seguia comigo para o colégio.
— Você é do grupo SM? – Disse sem me encarar nos olhos.
— Sim.
— Tá explicado.
A mãe dela conferiu os nossos cintos antes de fechar o portão.
Sou um homem parado frente a um relógio na parede. Parte de mim
ultrapassa o 12, mas se move como os ponteiros. Do que valem as lembranças?
Acho que para esconder o futuro. Esse mesmo relógio marcava 12 horas quando
aconteceu o nosso primeiro beijo. Depois de cinco anos a casa ainda é a mesma
por dentro; por fora, uma pintura nova.
Mariah é comissária de bordo e chega daqui a pouco no vôo das 12 horas. Enquanto
a espero, relembro os nossos dias. Eu trabalho com vendas e estou aqui com a
mãe dela. Estamos felizes, amanhã será o nosso casamento. A festa acontecerá na
rua doze Nº 1212, casa dela. Há um relógio preso no alto do saguão no
aeroporto. Na verdade há um relógio dentro de nós contando um tempo feliz. Pelo
vidro da sala eu vejo... O avião pousando como um pássaro. Vejo ao meu lado
pessoas se movendo... Vejo o relógio marcando 12 horas... Vejo, alguns segundos
depois, pessoas como eu desesperadas ao ouvir uma explosão na pista. As chamas
propagam como as minhas lágrimas. Dissolvem o que há na aeronave. Estou frente
ao relógio procurando respostas. Será que ela não está em outro vôo? Bombeiros
se revezam.
Frente ao relógio. Fecho os olhos e a vejo chegar, num avião que não
chegou.