
Hoje o amanhecer acordou mais cedo. Despertei-me devagar. Notei a falta
de tantas coisas. Falta de uma manhã sem pressa. De um dia em que as horas
conversam para não ver o tempo passar. Malemolência. Hoje eu acordei como quem
não acorda. Frente ao meu desconcerto, vejo minha imagem na parede, ouço o
espelho dizendo como estou. Vejo o tempo na parede, passando como passa a vida
que passa sem querer passar. Os ponteiros, como eu, dão uma imensa volta,
passeando pelo mesmo lugar. Procuro pela criança de ontem que no adulto se
esconde hoje. Criança sente falta, mas não é falta que machuca, é falta que dói
com um doer que não perdura. Senti falta.
Observei os meus discos, os meus
livros, as minhas fotografias. Diferente! Eu ontem... Eu hoje... A imagem e o
ser. Rasgando o tempo que rasga o ser. Não importa a imagem ou o ser,
importante é o hoje.
Divido-me em tantas coisas. Nestas coisas tantas, me apego às faltas que
hoje sinto sem querer sentir.
Olhos que me olharam. Falas que me falaram. Mãos compridas que seguraram
as minhas mãos curtas, carentes de um toque. Desencontros. O meu eu e as
faltas. A saudade é para o homem o caminho da volta. A saudade é a falta da
metade que não voltou.
Há tantas voltas.
Das tantas coisas que fazem um homem voltar, volto pela saudade de ter as
mãos curtas escondidas entre mãos compridas.