Observar uma porta nos eventos é
interessantíssimo. A cada dia me convenço mais de que a maioria das pessoas não
sabem porque vão, e quando chegam não sabem porque estão, e se estão, não se
conectam ao evento.
Gosto dos que entram pela porta com o objetivo
de sentar para ouvir. Esses chegam sem questionar com os olhos. De cabeças
eretas, como quem sabe o que fazer, entram e pronto. Discretamente se instalam.
Não mastigam, nem tossem. Não mexem no celular, nem perguntam se já começou.
Intrigam-me os que invadem a porta, levantam as
cabeças, lançam vistas panorâmicas. Observam como quem procura alguém e
desaparecem. Vejo a porta vazia, pergunto-me se os olhos delas me alcançaram.
Componho as minhas próprias respostas: no instante em que estou num lugar sou
parte do lugar, metade, parte inteira ou uma finura de mim. Defino: não fui
visto. O olhar demorou o tempo de um silêncio.
Há os que adentram a porta apenas com a cabeça.
Seus corpos não atravessam a passagem. Penso que eles sentem vergonha da cabeça
que carregam. E também pode ser que a cabeça, pensa o mesmo dos seus corpos. O
fato é que eles entram (apenas a cabeça com o máximo-mínimo do pescoço), roda o
olhar, roda o olhar, roda e, desaparecem.
Gosto das portas nos eventos. Gosto dos
eventos. Mas estranho os que entram e não sabem porque entraram.