
Não
foi tão simples como pensava, bastava ler o jornal. Compreendeu. Os trinta e
dois canais na TV não diziam nada e quando diziam, não era fato ao qual se
prende a atenção com zelo. Os livros eram muitos. Alguns com histórias que se
entende de uma só lida e outros que precisavam de muitas leituras. Uma garrafa
de café, quatro xícaras e bolachas na mesa. Lá fora o sol sorria. Os cachorros
se pegavam, o gato dormitava na janela e o vizinho ouvia um som, parecia
música. O telefone tocou. O homem atendeu, mas antes que pudesse guardá-lo no
gancho ouviu a campainha tocando. Não lhe interessava comprar panelas, nem
redes. Tomou uma xícara de café com os olhos fixos no jornal. A campainha soou.
Não pensava em se converter, nem tinha tempo para a igreja logo mais à noite.
Abriu o computador. Nada lhe prendeu a atenção com primor. Fechou a internet,
precisava escrever a crônica do semanário. O celular tocou. Agora vendem cursos
por telefone. Para não ser desarmônico, ouviu a conversa até o fim. Perdeu onze
minutos, tempo suficiente para elaborar um artigo. Abriu o jornal. Precisava
confirmar se existia propósito na incoerência ou se havia na frase uma
incoerência sem propósito. A gramática morria ali algumas vezes, mas dessa vez
não tinha perdão.
“Vende-se
uma casa com quintal no jardim”.
O jornalista sorriu quando desligou o
celular. Havia encontrado o assunto para a sua crônica. Ficou sabendo que fora
escrito de propósito. “Ninguém repara no que é normal”, afirmou o jovem que
escrevera o enunciado. “Há pessoas que têm dentro de si uma casa com o quintal
dentro de um jardim, a essas, falta-lhes a coragem de organizar o quintal,
arranjar o jardim, para que a casa fique bela” – concluiu o jovem, sem se
importar com os questionamentos do velho escriba.
Uma casa com quintal no jardim.
O erro escrito no jornal possibilitou ao
homem escrever a sua crônica e a observar a beleza despercebida nos contrários.