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De onde venho,
um homem volta de muitos lugares. Esse dizer foi meu alento, alguns segundos
após pousar os meus pés na escura sala da minha habitação.
Para
alguns moradores de Cruz das Almas, vila em que nasci, era eu um menino
estranho, amuado, de pouco falar e metido a besta. Outros, da parte que
discordavam dessa ideia, eu apenas não jogava conversa fora e que era menino
dedicado aos estudos. A metade da metade que sobrava não se posicionava. Quando
opinavam, concordavam com ambas as explanações.
Havia momentos em que me dizimavam porque apareci numa reportagem de TV. Menino metido! Pensa que é artista de
Hollywood. Tem o nariz tão empinado que se andar na chuva, afoga. Diziam. Em
outros momentos, reportavam aos visitantes da cidade que eu era inteligente e
que, por causa minha, Cruz das Almas ficou conhecida em todo o Brasil. Ligavam
os vídeos e mostravam a repórter me entrevistando. A equipe de TV veio fazer
uma reportagem na região. Um grupo de geólogos estava percorrendo o rio Iguaçu desde
a nascente e, na minha região, buscavam saber quais afluentes tornavam-no largo
e profundo. Apontei-os. Dizendo os nomes dos sete córregos que desaguavam
naquele extenso rio. Em Cruz das Almas ficavam os últimos afluentes e o Iguaçu
não recebia mais riachos. Tinha as águas que precisava para entregar ao mar. Os
sete quilômetros de percurso eram cheios de curvas e quedas. Penso ser uma
espécie de balanço para fechar contas com o mar.
Minha
mãe era mulher trabalhadeira. Lavava e passava a roupa das madames e ainda
cuidava da faxina da joalheria, do armazém de roupas, da farmácia e da loja de
construção; comércios de grande importância na cidade. À noite, chegava e
dormia. No fim de semana cuidava da casa, não conversávamos. Sabia pelos outros
algumas coisas ao meu respeito. Ela nunca disse nada sobre o meu pai. Eu caminhava nas indagaçoes. Não cabia outros desejos se não o de conhecer a minha
nascente biológica.
Tínhamos
uma casa pequena na rua primeira antes da principal. Quase ninguém nos
visitava. Notei a falta de visitas no dia em que muita gente foi nos visitar. Numa
tarde em que eu voltava da escola, encontrei a minha mãe morta. Estendida na
sala. Sob o olhar de muitos olhos. Uma descarga elétrica, vinda do ferro de
passar, levou para sempre a minha mãe.
Fui
morar com a minha tia Laurinda, por duas necessidades: ter alguém para me
cuidar e descobrir aos quatorze anos, ouvindo as paredes, o que ela sabia do
meu pai. Depois que fixei residência ali, tia Laurinda economizava nos dizeres.
Aos vinte e três anos entrei para a universidade, mas não concluí.
Tenho
quarenta e três anos, há cinco completei a faculdade e ainda não me decidi
casar. Recentemente voltei a Cruz das Almas. A
minha tia Laurinda partira para sempre. Deixou bens e uma carta endereçada a
mim.
23 de março 1987
Meu
querido sobrinho, João Eugênio Simon. No momento em que escrevo essa carta,
penso estar nos meus últimos respiros. Não tenho tempo para te esperar. A morte
me rodeia e já levou uma parte do meu corpo. O câncer é muito cruel quando
chega, mas ele permite que morramos devagar e delega o tempo necessário para
que possamos nos arrepender e reparar nossos erros. Sei que vive a procurar
quem você é, assim, saber quem é o seu pai. Digo a você esse segredo, eu e a
Juliana sua mãe não conhecemos nossos pais biológicos. Éramos gêmeas. Fomos
roubadas na maternidade. Não tenho mais forças pra te dizer tudo. Procure o
Anselmo. Ele sabe muito sobre você e dirá quem você deve procurar.
Beijo da sua
tia Laurinda
Os
meus olhos ganharam águas ao fim da leitura. O silêncio que sou permite ver o
silêncio que fui. Os nomes a procurar desabam do tempo em mim, rio de águas
escuras, de silenciosos barrancos, agitado nas profundezas.
Percorrem,
meus pés, pelo corredor da casa antiga. No quintal borbotam lembranças. As reminiscências
vigiadas parecem de pouco tempo. Desci a rua da casa que foi minha. Meus olhos navegaram
os lugares onde nunca brinquei, mas que sentei para ver as pessoas passarem.
Algumas traziam seus conselhos. Se eu os praticasse, não serviria para ser
mundo, mas uma ficção.
— Esse menino nunca brinca! – Diziam uns.
— Gente amuada nunca brinca. – Repetiam
outros. Como Don Quixote, eu seguia de pé.
A cabeça elevada. Ouvindo o meu ouvir.
Anselmo
veio me encontrar na porta, trazendo no riso-metade, rabiscos tristes. Seus
olhos apontaram meus fios brancos, cabelos que se recusam a ser pretos para
relatar o tempo grifado em mim. Escondi-me naquele abraço pensando ser ele o
meu pai. Casado há trinta e sete anos, aquele senhor nunca tivera um filho. Ponderava
ser eu o fruto das suas aventuras com a minha mãe. Joana coube no meu abraço.
Vi no seu rosto o alívio de quem se lavou no perdão. Não podendo dar-lhe um
filho, aceitou sem rezingar as aventuras do marido. Anselmo lançou um olhar
inquieto quando eu trocava notícias com Joana. Ela queria saber dos acontecidos
no tempo em que estive distante.
Notei
certo cansaço no homem que pensava ser meu pai quando saímos para caminhar. Vendera
a farmácia e se aposentara, há dias reclamava de dores no peito. Joana
mencionou na conversa. Ele sentou com dificuldades em uma das cadeiras que
ocupava a calçada, arfando, pediu água. O dono do bar, percebendo, trouxe-lhe a
água e ajuntou as demais cadeiras liberando a calçada. Não fiquei tomado de
medo, me parecia natural ver um homem carecendo respiração. As pessoas foram se
ajuntando, formando um círculo, alguns instantes depois se afastaram para que
encostasse a ambulância. Tarde demais. Anselmo sofrera um infarto e tudo que eu
precisava saber estava ligado a outro nome, Elmir, o árabe. Foi o nome que o meu
suposto pai me indicara. Palavra última.
O
armazém de roupas ganhou uma fachada nova e uma porta de vidro. Elmir tinha os
cabelos grisalhos desde que eu era menino. O tempo não alterou o seu semblante,
sinto na primeira olhada ao passar pela porta. Olhou-me como um dos seus
clientes. O seu proceder tocou a parte escura da minha claridade. O homem que
não mudara por fora não era mais o mesmo por dentro. Modificou-se comigo quando
descobriu que eu não era um filho seu e que poderia acioná-lo na justiça
alegando paternidade. Qual prova? Os olhos da sociedade. Se eu dissesse ser
filho, todos confirmavam. A minha mãe o namorava e frequentavam a casa de
dança. Elmir me fez um cumprimento de mão e, como quem está ocupado, abriu uma
gaveta e me entregou um nome, ao qual devia procurar. Frieza provoca frieza.
Recebi o papel e virei as costas sem dizer cumprimentos.
Antonio
Simão alugou a joalheria e se aposentou. Estava em viagem. Casara novamente e
foi visitar a filha na Itália. Quem me entregou um nome pequeno numa folha
inteira foi a sua irmã, a Dona Sabe Tudo. Seu nome verdadeiro, Irene Sampaio. O
apelido é nome dado quando eu era menino.
— A tal da Irene Sampaio é uma fofoqueira,
sabe tudo da vida dos outros, menos do que a filha apronta. – Dizia minha Tia
Laurinda.
Prometendo
voltar e tomar um café, despedi-me da Dona, beijando-lhe o rosto. Disse ela,
após soltar as mãos da minha mão, que precisava conversar comigo. Assenti com a
cabeça já me pondo a caminho em direção ao último suspeito.
Cecílio
Ledo não foi namorado da minha mãe, mas diziam as más línguas que ele, assim como
o Anselmo, se escondia com ela no horário de trabalho. Cecílio ainda cuidava da
loja de eletrodomésticos, mas quem gerenciava era o seu genro. Encontrei um
homem de sorriso alegre e largo num rosto oval e maxilar com cavanhaque. Andava
pela loja com passos curtos e rápidos. Dos homens que procurei, quis que fosse
o meu pai. Poderíamos nos divertir. Contar histórias. Poderia ser pai, eu ser
filho e o tempo demorando em nós.
A
tarde caminhou sem pressa pelas nossas recordações. Ele não mencionou o nome da
minha mãe, nem da tia Laurinda, mas contou-me coisas que me abriram o
entendimento. As certezas que eu tinha foram enfraquecendo, mas não escapei de
mim. Como professor de história, conhecia a biografia de tantas gentes, mas não
conhecia a minha. Guardei todos os receios do mundo e a figura paterna, como
arabesco, adorna as salas do meu vazio. Pelas ruas minhas, estradas eu invento.
Elas me levam a quem sou. E eu sou isso: nada, além de buscas e desejos de
encontros.
Um
dia depois, quando o sol já se escondia, fiz uma visita à dona sabe tudo.
Ajeitei-me na graça dela mergulhando na surpresa, ela realmente sabia das
coisas. Com a conversa ganhei metade do passado iluminado. Quando se joga luz
num quarto escuro, partes negadas também são iluminadas. A minha mãe nunca
tivera um filho biológico. Sou filho de mãe que cuida por piedade divina. Li em
recortes antigos, notícias novas em jornais velhos:
“Criança é encontrada na lata de lixo em dia
de chuva”.
— A sua mãe tinha abandonado o casamento. Era
ela da idade de vinte e cinco anos quando o encontrou. – Disse dona Irene, após
mostrar todas as fotos e reportagens sobre mim. – Ela o tomou nos braços e
encheu de cuidados. Por causa de você nunca quis se casar, mas era namoradeira.
– Disse, estendendo a tônica “deira”.
Inférteis,
tia Laurinda e minha mãe.
Andei
voltas longas dentro de mim após deixar para trás a casa da dona Irene. Como
quem se despede de um ente querido, ela chorou.
Dona
Irene me falou dos seus pecados. Confessou que abandonara o seu primeiro filho
numa cesta de lixo e que viera morar em Cruz das Almas carregando na
consciência o peso da mão de Deus. Sentia ela, morando ali, o seu pecado se aliviava.
Temendo maior juízo divino, casou-se e teve uma filha.
Sigo
os dias que me arrastam. Meu passado se resume a um recorte de jornal. Quando
vejo homens coletando o lixo, penso se não estão recolhendo a minha história. Voltar
nem sempre é agradável. O homem vive melhor quando imagina. A realidade é peso
grande para homens como eu. Não sei brincar de ser humano e tudo que sou, sou
isso que o acaso fez.