
Vi. Ver é uma questão do viver.
Vi e notei, nos meus olhos, incredulidade. Uma palavra, duas ações e um ato:
viver. Vi e Ver são monossílabos, mas, viver é mais que dois sons e muito mais
que dois atos. Dois verbos que se ajuntam para dar movimentos à existência. Vi
e Ver no imperativo têm sons urgentes: vê-ja. Ver o que Vi é viver no
aprendizado de que, apesar das coisas que Vi, preciso Ver o que acontece ao meu
redor. Ontem eu Vi coisas que os meus olhos não anseiam mais Ver, mas também Vi
casos que dão gosto de Ver. Hoje eu vi
fatos. E ver fatos como esses é uma desconstrução. É como se o momento perdesse
a chance de apreciar o instante. O instante que não é já é passado. No Viver
sofre-se porque viu, e entedia-se porque vê. Há inconstância no interstício,
deslocação humana. Viver é um arrastar de alma, um descompreender do instante,
um descambar do espírito, um estar que não está. Tudo é, mas também não é. É no
“quando está” que se enxerga de verdade. Vi. Ver é recorte meu. Projeto-me,
figuro-me, confecciono-me, me visto das verdades que são minhas, sem Wildiar.
No ver está o tudo: a beleza e a feiura. A cor, o tempo, o tamanho, a extensão,
a dimensão. O viver alegra-se no que viu e também no que vê. Vi e ver. O
passado esbarra no presente, mas é instante. E ninguém é instante sem misturar
as estações. A emoção captada ajunta os verbos Vi e Ver para sobreviver no
tempo que não espera viver. Vi. Ver foi por acaso. Não estava ali por buscas de
olhos, mas por automatismo. Vi. Ver esse tipo de acontecimento é fato deslegal.
Meu mundo munda por coisas simples.
Se perder no simples é sofistificação, no sofisticado é humildade. Temos os
olhos abertos, sentimos o mal dos homens absolvidos pelos olhos da luxúria. A
necessidade brota do que vi, do que vejo e o que vou ver. As possibilidades
ameaçam o viver. Quem tem olhos fechados quer apenas ver. Sobre’viver. Eu
estava ali. Registrando com meus registros castanhos: uma câmera e um espelho,
entre os objetos, um homem. Parecia tão pouco o mundo, tão pouco o espelho, tão
pouco a câmera, tão pouco o homem. Vi. Ver que uma selfie é a essência de ser
visto, não cabe no viver do homem que sobrevive inventando verbos.
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