Hideo Inabata é um japonês orgulhoso de sua nacionalidade, que chega ao Brasil na segunda década do século XX com o objetivo de enriquecer e cumprir a missão sagrada de levar recursos ao Japão, conforme orientação do imperador aos seus súditos. O árduo trabalho no campo, a difícil adaptação ao Brasil, a morte da primeira esposa e os conflitos com os filhos Haruo e Sumie são um teste para a inflexibilidade do nihonjin (japonês). O narrador, neto do protagonista e filho de Sumie, empresta voz e visão contemporânea à transformação do avô e do seu sonho de voltar rico para casa. Nihonjin, romance de estreia de Oscar Nakasato, foi o vencedor do 1º Prêmio Benvirá de Literatura, do qual participaram 1.932 concorrentes de todo o Brasil com obras inéditas.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
PODIA SER...
FOTO DE REPRODUÇÃO
Como explicar um “podia ser”? Já era anunciado que podia. Difícil era
aceitar que seria. Mas se não fosse? Ainda assim, podia. Podia o dia alongar
sem se preocupar com a minha espera. Seria difícil conviver com todos os
pensamentos ansiosos que provêm de uma espera, mas podia acontecer. Podiam os
pensamentos se dividir em bons ou maus. Seria difícil separá-los...
Escolhê-los...
Podia, nas escolhas, acontecer um erro. Seria desagradável conviver com
elas, as escolhas, por tempos que não se medem com palavras. Podia escolher
conviver e, com uma boa convivência, coexistir. Seria normal a psicoadaptação.
A beleza mora entre dois seres, distantes. Perto, as flores não crescem tão
normais. Podia pensar no encanto. Seria normal uma atração. Podia deixar que
tudo acontecesse como as estações do ano. Seria como as notas de uma melodia,
uma soa após já estabelecida a outra. Podia sentir o coração batendo. Seria
interessante. Podia também nem perceber. Seria distração inventada. Podia.
Podia. Simplesmente podia, além do verbo poder. Seria. Seria... Seria distração
esperada, além do que seria.
Como explicar um “podia ser”? Estava claro que podia ser. Podia encarar a
situação como um menino. Seria apenas um menino. Podia enfrentar na condição de
homem. Seria simples se mostrar adulto. Podia esperar? Seria emocionante. Podia
acreditar? Seria impressionante. Podia, ser. Já era anunciado que, um dia, ela
cortaria os cabelos, mudaria de lugar e, com o mesmo olhar, mudaria o jeito de
me ver.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
O VALOR DE UM PROFESSOR
FOTO http://www.flickr.com/photos/philljackcolombia/4922834681/
O VALOR DE UM PROFESSOR.
E se pudéssemos, num dia que não
fosse quinze, que não fosse do dez de um ano ou outro. A gente se pegasse
pensando na primeira sala. Na primeira carteira. Na primeira letra ou nos
primeiros movimentos das mãos. Se pensássemos assim, nos primeiros amiguinhos,
na primeira bronca do primeiro professor. E se pudéssemos, num dia que não
fosse quinze, que não fosse do dez de um ano ou outro, mas de uma semana
qualquer. Num dia algum, de sol, de chuva, de frio ou de desencontros onde procuramos
por nós mesmos. E se pudéssemos, num dia que não fosse quinze, que não fosse do
dez de um ano qualquer. A gente se pegasse lendo um livro num jardim, lendo um
jornal no metrô, lendo os painéis de uma nave no espaço, lendo o contracheque
do salário, lendo as leis no congresso, criando leis no país, ou escrevendo
nossos discursos. E se pudéssemos, num dia que não fosse quinze, que não fosse
do dez de um ano que é sempre. Em todos os discursos, em todas as letras
escolhidas, em todas as palavras escritas. Saber onde tudo começou é
ultrapassar o dia que é quinze, que é do dez, de um ano qualquer. E se
pudéssemos num dia que não fosse apenas quinze, que não fosse apenas do dez,
mas de todos os dias. Quem sabe aprenderíamos a bravura das primeiras letras, o
valor de um professor, em todos os tempos.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
QUAL A COR DOS SEUS OLHOS?
FOTO DE REPRODUÇÃO
O frio aumentara na
tarde de terça-feira na primeira semana de julho. Um vento cortante vindo do
sul estendera a friagem que começara no sábado. Depois de certificar se havia
desligado todos os computadores, Marcelo Kemps apanhou um livro que estava
sobre a escrivaninha, enfiou no meio das pernas, pegou o blusão, e depois de
vesti-lo, conferiu os cabelos usando como espelho o vidro da parede. Retirou o
livro do meio das pernas, folheou-o várias vezes até encontrar o cartão do
ônibus. Fechou a loja e seguiu seu caminho. A melhor das voltas, voltar para
casa. Não tinha muito a fazer. Tudo que queria era deitar em um sofá e esticar
as pernas para cima. Nos últimos dias estava se sentido solitário e se
perguntava constantemente onde tudo começara.
Mark, como gostava de ser chamado, não esperou tanto dessa vez pelo ônibus.
O frio aumentava cada vez mais, fazendo-o perceber que havia esquecido as
luvas na loja. As mãos colocadas dentro dos bolsos. Os pés, vestidos com meias
grossas, doíam.
Quando entrou no ônibus sentou-se no único lugar que sobrara vazio. Ao
seu lado, alguém se escondia atrás de um livro. Tinha um gorro na cabeça e
usava uma grossa blusa de frio. “A ÚLTIMA MÚSICA”. Leu. Curiosamente o mesmo
que ele estava lendo. Ela ergueu os olhos acima da página e se encolheu ainda
mais no canto. Seus olhos passearam no rapaz como um relâmpago e voltou a se
esconder na leitura. Capitulo dezessete. Descrevia a personagem. Ele sabia.
Estava lendo a mesma página.
Tudo lá fora estava estranho. Pessoas enroladas em seus casacos, o final
de tarde sem sol, cinza. Sabia que quando chegasse em casa não haveria sofá e
nem tempo para esticar as pernas. Teria que se arrumar e chegar mais cedo na
faculdade. Se pudesse, mudaria os planos.
Uma senhora entrou. As mãos cheias de sacolas a impediam de andar pelo
corredor do veículo. Mark se levantou para ajudá-la. A menina se prontificou em
ajudá-lo com as sacolas, mas ele fez um gesto, faria tudo sozinho. A moça voltou
ao seu lugar e ficou observando. Mark girou para retornar ao seu assento e o
livro que estava dentro do seu blusão despencou, indo parar perto dos pés da
garota. Ela o recolheu com um sorriso.
— Eu também leio Nicholas Sparks. – Mark disse, como quem sente vergonha
ao ser surpreendido. Se os seus amigos soubessem, com certeza seria zoado.
Resolveu ler para ter assunto quando se aproximasse da Selena. A intelectual da
classe, que tinha olhos apenas para o seu amigo que nem notava que ela gastava
uma diminuta parte do seu tempo olhando para ele.
— Estou percebendo. – Ele recebeu o livro das mãos dela e sentou-se
envergonhado. Ela não o olhava, mas o percebia. Ele, irresoluto, queria
explicar.
— Não é o meu tipo de leitura. Leio porque me falaram que é bom. – Ela
continuou com a cara dentro do livro. Uma pausa. Outro movimento de embaraço. Dessa
vez ele enroscou o pé no banco da frente.
— É apenas um livro, relaxa. – Ela falou com um meio sorriso. – Eu não
vou contar pra ninguém.
— Desculpe. – Deixou soar um sorriso. – Mesmo que quisesse contar para
alguém, não conhece os meus amigos... É... – Quando ele ia falar o ônibus
parou. Ela estava descendo no ponto dela. Ele demorou alguns segundos para
reconhecer, era também o ponto dele. Demorou alguns minutos para alcançá-la.
Ela andava muito rápido. Quando finalmente a acompanhou ela já estava abrindo a
porta de um carro e se enfiando dentro. A mulher levantou uma das mãos do
volante, lhe acenou e levantou o vidro. Quem era a moça? Por que tanta pressa?
Para onde estava indo? Por que não o deixou explicar?
Alda ligou o som. A música lenta recheou o ambiente. A rua quase deserta
facilitava o trânsito. Aline, no banco de trás, ignorou a canção e com a cara
dentro do livro se perguntava por que alguém se prende em coisas tão pequenas.
Ter vergonha de ler um livro. Se fosse um livro ruim e ainda que fosse, a
necessidade de leitura era dele. Quem é ele? Por que tanta lentidão em explicar
o óbvio? Para onde ele foi?
— Quem era o rapaz? – Alda perguntou. Raramente via a filha conversando
com alguém estranho. Aline sorriu.
— Também estou aqui me perguntando quem é ele.
— Ué, você estava com ele e não sabe quem? – Alda falou, olhando-a pelo
retrovisor acima.
— Sei apenas que é alguém que está lendo o mesmo livro que eu, na mesma
página. Sentou ao meu lado e ficou envergonhado quando o livro despencou. –
Alda sorriu, não acreditando muito na história da filha.
Aline ajeitou demoradamente os longos cabelos negros, pensando na roupa
que ia usar. Mesmo não querendo, andou se lembrando. Quinze dias se passaram e
mesmo tomando o ônibus duas vezes por semana não mais o encontrou. Se o visse
novamente o reconheceria de imediato? Sorriu. A pergunta teria uma boa resposta
se fosse: depende, se ele tiver um livro nas mãos... Ficar com vergonha...
A palestra começaria às 19h30min. Conferência para pequenas empresas e,
dentro da apresentação, o orador faria uma abordagem sobre gerenciamento e
logística. Mark chegou mais cedo e enquanto aguardava se ocupara de um dos livros
do palestrante. Uma mesa estava enfeitada com livros esparramados e em
decoração, um jarro de flores brancas em cada lado de um notebook e no telão o
último livro do palestrante. Na imagem, um homem de cabelos grisalhos segurava
a mão de um menino, sorrindo, ambos miravam uma estrada. – Em tempos diferentes
na vida, a estrada é a mesma. Ser velho ou ser criança não importa, no final,
passamos pela mesma estrada, o que importa é o que acontece conosco enquanto
caminhamos. – Dizia uma voz no vídeo.
Havia poucas pessoas no salão quando Andrey Sóstenes chegou, com a
felicidade de quem gosta de motivar alguém. Mark juntamente com outras pessoas
se reuniu ao redor do homem. A conversa estava interessante. Um rosto era-lhe reconhecível.
Mark percebeu isso e, depois de executar um pequeno giro de cabeça, se
perguntou de onde conhecia a moça. Compridos, negros, espalhados e cobrindo os
ombros, os cabelos realçavam o rosto que era, para ele, angelical. Ela nada
dizia, apenas meneava a cabeça enquanto ouvia o assunto e, com um olhar firme,
absorvia cada palavra dita. Aline reconheceu de imediato o rapaz. Ele tinha um
livro na mão, a coincidência coincidiu-se.
Andrey Sóstenes falou por noventa minutos. Quando todos se preparavam
para ir embora, Mark procurou por aqueles olhos que se desprendiam como a força
do sol rasgando nuvens escuras, mas não a encontrou. Quem seria a dona daqueles
cabelos e daquele olhar que fazia parar o tempo? Conferiu as horas no visor do
celular. O tempo não havia parado, o que parou foi a sua visão. Incapaz de
fugir do encanto, cingiu o coração com a beleza da moça.
Mark refletiu sobre as coisas que aconteceram nos últimos dias. Não
estava preparado para o que estava se passando. Dentro de um ônibus, em um dia
em que nada dera certo, um par de olhos lhe fisgara a existência. Por mais que
insistia em esquecê-los, não conseguia. Ninguém olhava daquele jeito e ele
queria olhar novamente, e olhar outra vez até que se encontrasse dentro daquele
olhar. Acendeu a luz do seu quarto e com um salto isolou-se na sua cama. Com os
pés tocando o chão, deitou-se de braços abertos imaginando o que acontecera.
Queria encostar o nariz sobre o nariz dela e enquanto lhe tocasse o riso,
deixaria que os seus dedos deslizassem por toda a longura dos seus cabelos. Com
os olhos mirando o teto do quarto, adormeceu.
O shopping. Pessoas se aglomeravam num corredor. À esquerda, a sala de
cinema. À direita, uma lanchonete com poucos lugares vazios; as pessoas
ocupavam o espaço onde havia sombras. Nas tardes, o sol irrompia o vidro instalando
levemente numa parte do salão. A luz tocava sensivelmente uma parte do
aquário. Aline tinha os cabelos presos
com uma caneta e enquanto tomava um suco de laranja deixava que os seus olhos
percorressem as páginas de um livro.
Sem tirar os olhos do livro, ela notou que alguém se aproximou do
aquário. Gostava daquele lugar e três vezes por semana, enquanto esperava a sua
mãe sair da academia, sentava ali e tomava um suco enquanto lia. Quando levantou
os olhos percebeu um rapaz parado à sua frente e que esse lhe era conhecido.
Mark não esperava encontrá-la ali perto do fim da tarde, por isso, um novo
embaraço. Embaixo da mesa, ele observou. Ela tinha os pés formosos, livres numa
sandália rasteira, expostos aos encantos dos olhos dele. Se fosse poeta
escreveria algo sobre aqueles membros. Ela notou que ele fitava-lhe os pés e
recolheu-os. Delicadamente recolheu-os.
— Oi. – Falou ele com timidez esperada.
— Olá. – Falou usando aquele olhar que o revirava por dentro. Guardou o
livro depois de marcar a página.
— Vi que é outro livro.
— Sim. Terminei aquele.
— Que velocidade em ler um livro. – Ela riu. – Posso sentar?
— Uhum.
— Como é o seu nome?
— Aline. O seu é...
— Mark. – Ela o olhou novamente por alguns segundos. Ele pensou estar
incomodando, devido ao jeito como ela se comportava com os olhos. Não olhava
diretamente para ele e sim para uma direção que lhe permitia vê-lo sem ser
direta.
— Estamos sempre perto um do outro, mas quase não conversamos. – Falou
ele depois de um breve silêncio. Ela riu. Ele se levantou e estendeu a mão.
— Já estou indo. Gostei de te ver aqui.
— Eu também gostei.
Ele percebeu. Ela tinha mãos delicadas. Um pouco mais compridas, mas que
encaixavam perfeitamente nas suas. Imaginou andar pelo corredor do shopping
tendo a mão esquerda escondida na mão direita dela. O mundo mudaria a cor.
Alda surgiu de dentro de uma sala. Com uma pequena toalha branca, secava
os cabelos. Vestia uma roupa colada estampando flores vermelhas e alternava a
batida nos cabelos com alguns goles de água da garrafa presa em suas mãos. Ela
parou e ficou observando o rapaz se afastando.
— É o rapaz daquele dia?
— Sim.
— Bonito!
— Também acho.
— Como ele te encontrou aqui?
— Através da coincidência. – Alda sorriu, descrendo do sarcasmo da filha.
— Desde quando a coincidência promove encontros?
— Sei lá. Pra mim tem dado certo. – Mãe e filha se olharam e os segundos
seguintes foram de risadas.
Quando os amigos chegaram à sala de aula, naquele dia, ele observou que Selena
usava sandálias rasteiras. Mark percebeu, ela não tinha os pés formosos. Os dedões
eram extremamente compridos e o mindinho, mindindinho. Fez questão de
cumprimentá-la e, ao tocar em sua mão, observou que a menina não tinha mãos que
escondiam as dele, e que os cabelos não possuíam a negritude comprida que os
seus dedos ansiavam percorrer sem pressa. Não comparou o olhar, pois, era
incomparável ao olhar da Aline.
— O que você tem, cara? De alguns dias pra cá você parece com a cabeça
nos ventos. – Ivan disse, abraçando-o pelo pescoço.
— Há coisas que acontecem e que não sabemos explicar. – Disse
desvencilhando os braços do amigo irmão.
— É, você tá estranho. – Selena admitiu. Ele já não a olhava mais com
olhar de quem avalia quadros.
— Penso que ainda sou o mesmo. – Disse sorrindo, sabendo que havia sim
uma mudança. Pensou num momento quase recente. Com o coração anunciando medos,
caminhou com a Aline por uma rua escura. O medo era dos sentimentos ligeiros. A
escuridão e olhos que não compreendiam não deixaram que ele a olhasse como se
olha para alguém que faz uma pessoa existir. Pelo vulto entre lâmpadas que não
clareavam, contemplou apenas uma parte dela, a voz. Amou o som, amou o vulto,
amou saber que podia caminhar ao lado dela, mesmo com o coração anunciando
timidez.
— Então...
— Então o quê?
— Me conta, de quem você tá gostando? – Mark sorriu e, antes que dissesse
algo, Ivan interrompeu. – Vi que você ta gostando de alguém, mas não é a
Selena, nem olhou pra ela hoje. – Mark sorriu novamente abrindo os braços.
Havia olhado sim, mas dessa vez enxergou tudo num instante e não encontrou mais
o encanto que o prendia a ela. A paixão é diferente do amor. Ela tende a ocultar
detalhes que o amor não suportaria esconder. – Me fala aí, dessa nova pessoa...
Ivan e Mark sempre foram bons amigos. Quando a sua mãe veio morar com o pai de Mark,
ela o trouxe para dividir o quarto. Desde crianças estavam sempre juntos e
nunca brigaram. Por ter na idade um ano a mais, Ivan se sentia no direito de
protegê-lo.
Mark esperou que o tempo se alongasse para ter coragem de
falar dos seus sentimentos, mas se tivesse que descrevê-la naquele momento,
diria:
“Possui o dizer de quem conhece a
razão, a calma que desativa uma guerra e um olhar que revira por dentro. Usa
pouco as palavras. Ela sabe que não precisa de muitas falas. É uma mulher que
sabe dos movimentos do amor e sabe também que o coração se entrega a qualquer
gesto delicado quando se está sozinho”.
A noite seguia sem pressa e a lua parecia sorrir tendo uma estrela ao seu
lado. Ivan exalava a felicidade, estava inaugurando o seu site, depois de
trabalhar tanto nos últimos dias. Os convidados foram chegando e ele, feliz por
ter um site, conheceria também a mulher que mudou o seu irmão. Somente depois
de anunciar as novidades do seu site é que ele se aproximou de Mark e Aline. Lançou
nela um olhar de proteção. Gostou da moça. O seu irmão tinha sempre bom gosto,
ela transmitia paz e segurança, ao contrário da Selena com seu sentimento fugaz.
— Ele está feliz, está realizando o sonho dele. – Aline disse enquanto o
olhava de longe. Mark observou. Ivan caminhava por entre as pessoas com total
atenção a cada um dos presentes ali.
— Sonhos... – Disse elevando os olhos para o alto. – Ele falou tanto desse
sonho... – Apanhou duas taças do garçom que passava. Estreitou os olhos nela. –
Qual o teu sonho? – Mark perguntou, entregando a ela uma pequena taça de
champanhe.
— Meu sonho?! – A pergunta a apanhou de surpresa. – Deixe ver... Hum... –
Fez uma pausa, olhou para os lados, mas antes que se alongassem os segundos
voltou a encará-lo com o olhar que ele gostava de descrever. – Estudar
psicologia. – Fez uma pausa. – Quero ser uma psicóloga, é isso! – Sorriu. – E
você, qual é o teu sonho? – Disse alongando o “é” e com um meio sorriso esperou
a resposta, sem olhar diretamente para ele.
— Tenho muitos sonhos... – Trocaram silêncios. – O mais impossível
envolve você.
— Ah! É?! – Fez um gesto com as mãos, pedindo que ele continuasse.
— Te abraçar enquanto te beijo, mesmo que seja por alguns segundos... Deslizar
os meus dedos pelos seus cabelos pode ser impossível, mas... Se você não quiser.
— Mas o sonho é seu... – O seu rosto se iluminou e a boca ameaçou um
riso.
— Eu disse que envolve você. – Esperou ela sorrir, mas ela desviou o
rosto. – Desculpe, estou apenas brincando...
Ela se escondeu no silêncio e disfarçava a falta de palavras bebericando o
champanhe. O amor acontece como gotas, as gotas eram partes dela. Os olhos. Os
cabelos negros e longos. As mãos que abrigavam as dele. O som da voz. Os
diálogos curtos. Os pés. Avistou-os um dia. Amou-os.
— Estou contigo nesse sonho.
— Mas o sonho não é só meu?
— Não importa, já estou envolvida.
A música dominava o lugar. Ninguém escutou o som de um beijo, nem
repararam nos corpos que se ajuntaram num abraço a meia luz. Ninguém sabia, o
amor chegou até eles, como gotas.
— Qual a cor dos seus olhos? – Ele indagou. Por um resumido instante ela
pensou nos namorados que teve. Ninguém lhe fizera tal interrogação.
— Castanhos claros. – Convicta de que encontrara o amor, Aline respondeu
depois de demorar com a resposta. Descobriu que havia três coisas interessantes
a serem observadas para que um relacionamento se perpetue: que os olhos mudam
de cor por pelo menos três vezes ao dia; que nos aproximamos pelo brilho que há
nas pessoas; e que se não permanecemos por perto, é porque não nos interessou
saber a verdadeira cor dos olhos.
sábado, 5 de outubro de 2013
GRAMÁTICA REMINISCÊNCIA.
FOTO DE REPRODUÇÃO
Era para usar os sinônimos. Há pouco tempo sentávamos no meio fio e
ficávamos lendo mensagens no celular. Ela deixava os cabelos soltos. Em tão
pouco tempo o dia passava. Eu, José Maria, gostava de observar as palavras estranhas,
ela, Maria José gostava de ler as palavras ao contrário. Quase no final da
noite eu enviava os meus trabalhos, ela lia, nas redações assinalava: use mais
os sinônimos. Ela ia para a escola de manhã, a noite era a minha vez. A tarde
era nossa. Juntos não havia sinônimo de bom, era simplesmente bom. Antônimos
apenas no futebol. Corinthians e Palmeiras. À tarde eu me acostumara a ficar
com ela, mas não reparava na camiseta com uma águia. Adoro águias, mas não no
futebol. Para onde eu ficava olhando? A gente se acostuma a não ver as coisas.
Ela detestava o verde. Acho que corintiano não torce pela seleção brasileira,
pois, na bandeira do Brasil não tem o preto. Ela tinha um lado palmeirense que
eu adorava, mas quando eu mencionei isso, ela nunca mais quis ler um livro no
jardim. Um dia disse que queria pintar a grama de preto.
Um dia fui visitá-la e fiquei sabendo que não podia vê-la. ??? Mas???
Como assim?! Ela havia passado mal e estava internada. A minha cabeça se encheu
de reticências. No meu coração, um travessão. Nos meus desejos, interrogações.
Desejei ardentemente vê-la. Preferia o antônimo do mal. Nas tardes que nos
faziam bem, queria simplesmente vê-la bem.
A reminiscência, sinônimo de recordação, traz em mim um bem que me faz
bem. As minhas redações ganham sentidos melhores quando uso os sinônimos.
Os antônimos se agigantaram quando crescemos. Ela conheceu um cara que
chegou como desinência dela. Começou a namorá-lo, descobriu que era um
sinônimo. Há pouco tempo a encontrei. Casada, há um ano suportando um antônimo,
disse que sentia saudades de quando sentávamos no meio fio e que as nossas
diferenças eram o jeito simples de sentir o amor. Quanto a mim, namoro alguém com
o nome de Josefa. Ela não gosta de redações, nem de futebol, nem de trocar
mensagens no celular. Não me impede de tocar nas lembranças e nem de amar os
sinônimos.
domingo, 29 de setembro de 2013
DIZERES...
FOTO DE REPRODUÇÃO
Se
você chora
É
porque está triste
Se
está triste
É
porque está sofrendo
Se
está sofrendo
É
porque está sozinha
Se
está sozinha
Fica
comigo...
sábado, 28 de setembro de 2013
UM QUINTAL NO JARDIM
Não
foi tão simples como pensava, bastava ler o jornal. Compreendeu. Os trinta e
dois canais na TV não diziam nada e quando diziam, não era fato ao qual se
prende a atenção com zelo. Os livros eram muitos. Alguns com histórias que se
entende de uma só lida e outros que precisavam de muitas leituras. Uma garrafa
de café, quatro xícaras e bolachas na mesa. Lá fora o sol sorria. Os cachorros
se pegavam, o gato dormitava na janela e o vizinho ouvia um som, parecia
música. O telefone tocou. O homem atendeu, mas antes que pudesse guardá-lo no
gancho ouviu a campainha tocando. Não lhe interessava comprar panelas, nem
redes. Tomou uma xícara de café com os olhos fixos no jornal. A campainha soou.
Não pensava em se converter, nem tinha tempo para a igreja logo mais à noite.
Abriu o computador. Nada lhe prendeu a atenção com primor. Fechou a internet,
precisava escrever a crônica do semanário. O celular tocou. Agora vendem cursos
por telefone. Para não ser desarmônico, ouviu a conversa até o fim. Perdeu onze
minutos, tempo suficiente para elaborar um artigo. Abriu o jornal. Precisava
confirmar se existia propósito na incoerência ou se havia na frase uma
incoerência sem propósito. A gramática morria ali algumas vezes, mas dessa vez
não tinha perdão.
“Vende-se
uma casa com quintal no jardim”.
O jornalista sorriu quando desligou o
celular. Havia encontrado o assunto para a sua crônica. Ficou sabendo que fora
escrito de propósito. “Ninguém repara no que é normal”, afirmou o jovem que
escrevera o enunciado. “Há pessoas que têm dentro de si uma casa com o quintal
dentro de um jardim, a essas, falta-lhes a coragem de organizar o quintal,
arranjar o jardim, para que a casa fique bela” – concluiu o jovem, sem se
importar com os questionamentos do velho escriba.
Uma casa com quintal no jardim.
O erro escrito no jornal possibilitou ao
homem escrever a sua crônica e a observar a beleza despercebida nos contrários.
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