sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
LIVRO: O FILHO DE MIL HOMENS
O FILHO DE MIL HOMENS
Valter Hugo Mãe
esta é a história de crisóstomo que, chegando aos quarenta anos, lida com a tristeza de não ter tido um filho. do sonho de encontrar uma criança que o prolongue e de outros inesperados encontros, nasce uma família inventada, mas tão pura e fundamental como qualquer outra.
as histórias do crisóstomo e do camilo, da isaura, do antonino e da matilde mostram que para se ser feliz é preciso aceitar ser o que se pode, nunca deixando contudo de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor. as suas vidas ilustram igualmente que o amor, sendo uma pacificação com a nossa natureza, tem o poder de a transformar.
tocando em temas tão basilares à vida humana como o amor, a paternidade e a família, o filho de mil homens exibe, como sempre, a apurada sensibilidade e o esplendor criativo de valter hugo mãe.
as histórias do crisóstomo e do camilo, da isaura, do antonino e da matilde mostram que para se ser feliz é preciso aceitar ser o que se pode, nunca deixando contudo de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor. as suas vidas ilustram igualmente que o amor, sendo uma pacificação com a nossa natureza, tem o poder de a transformar.
tocando em temas tão basilares à vida humana como o amor, a paternidade e a família, o filho de mil homens exibe, como sempre, a apurada sensibilidade e o esplendor criativo de valter hugo mãe.
http://www.valterhugomae.com/
domingo, 5 de janeiro de 2014
A DISTÂNCIA DO HOMEM
FOTO REPRODUÇÃO
Nome precisa ter significado. Não sei por que me chamo Ernesto. Entendo o
porquê do “da silva”, comum nas famílias brasileiras. Segundo os estudiosos,
dos trinta mil e quatrocentas pessoas no Brasil, 9,9 % carregam o Silva.
Seguido de Santos 6,1 %, de Oliveira 5,8 %, e de Souza 4,9 %. Sou da Silva, mas
não sou comum, sou Ernesto. Meu filho chama-se José Manoel da silva e a minha
esposa, Maria das dores Aparecida da Silva. Substituíram o Santos dela pelo meu
Silva. Na minha geração as mulheres perdiam um pedaço do sobrenome. A minha
neta, Ana Júlia da Silva de Toledo, recebeu no seu nome mais um nome: Toledo. O
meu bisneto tem um nome para ensinar alfabeto. Dez por cento do abecedário ele
carrega no nome: Dierlliyon, para ficar diferente, explica a mãe.
Sou Ernesto em homenagem a Che
Guevara, meu bisneto Dierlliyon, à criatividade da mãe. Meu pai Cosme Manoel da
Silva nos abandonou quando eu tinha treze anos. Saiu para levar uma boiada lá
para as bandas de Goiás e nunca mais voltou. Dierlliyon foi abandonado quando o
pai dele soube da gravidez da sua mãe. Esse deu explicação. Disse que a mina
era uma “quebradêra” e que ele não era Mané para endoidar nuns piraques desses.
Volto no tempo e quero de volta a minha infância. Fico prostrado nas
lembranças até me perguntar se o Dierlliyon sentirá saudades da sua meninice.
Eram quase onze horas de uma manhã de quinta-feira e o sol luzia no alto,
mas parecia ter descido alguns degraus. Minha mãe pediu pra ir ao correio. Uma
hora depois eu estava de volta com uma carta na mão. Um envelope listrado nas
cores verde e amarelo chegava uma vez por mês, mas a gente esperava, esperava,
esperava. O tempo não passava. Não tínhamos telefone, nem televisão. Às
19h00min sentávamos perto do rádio para ouvir a Voz do Brasil. Depois tinha
Jacinto, Barnabé... Minha mãe ia às lágrimas ouvindo a rádio novelas. Eu me
emocionava com ela. Também chorava, ouvindo o simples som de um beijo.
José Manoel é do tempo do rádio e da TV preto e branco. Ana Júlia cresceu
vendo TV colorida. Ouvia rádio fazendo os deveres da escola e brincava na rua,
pega-pega. Dierlliyon não entende um
olhar de repreensão, não joga bola nas ruas, e nunca ouviu falar de Jerry
Lewis. Máquina de escrever? Toca fitas? Disco de vinil? Nada disso Dierlliyon
conhece.
Às vezes me pego ansioso esperando que o meu irmão, que eu nunca mais vi,
envie-me uma carta lá das bandas de São Paulo. É nessa hora que me aborreço,
pois, vejo que o Dierlliyon recebe, em alguns segundos, cartas de sua mãe que
mora na Espanha. Ele chama de email. Fica num aparelho no qual ele passa metade
da vida apertando as teclas.
Sentado na varanda, vejo o sol se pôr entre nuvens esquisitas. Ao meu
lado, Dierlliyon tem nas mãos uma coisa que ele chama de Tablet. Ele conversa
com a mãe. Ela me envia um abraço. O menino me avisa sorrindo. Ainda sei que
sou desse mundo, amo o meu bisneto. O tempo nos liga. Somos sangue que se
encontra, em tempos desiguais.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
NINGUÉM LÊ OS MURAIS.
Foto reprodução.
— Estou indo viajar e não posso fazer mais nada.
— Você não nos avisou.
— Mas estava escrito.
— Não, não. Escutei alguém falando, mas você não comunicou a ninguém.
— Não tinha tempo para sair de um a um.
— Por que não usou o celular?
— Não tinha créditos.
— Justo agora?!
— Sim. Os celulares são assim: quando você precisa, não dá torre ou não
tem créditos e tem uma operadora que está sempre no escuro.
— E aí? Devia ter postado no Facebook, né?
— Fiz isso, mas às coisas sérias ninguém dá importância.
— É. – Refletiu. – O que é bizarro é mais visto, mas bem que podia ter
postado alguma coisa...
— Eu postei.
— Mas como?! Eu não vi nada. – Disse alongando o eu e abrindo os braços.
— Deixa pra lá... Falando nisso, postaram algo sobre a namorada do Fredy.
— Não era a namorada do Fredy, era a namorada do Neymar.
— Estão detonando o Malafaia.
— Você quer dizer, o Feliciano?
— Tanto faz. Você acabou de revelar que não averiguou o comunicado entre
essas duas postagens. Era o mesmo que estava escrito nos murais da universidade:
REPOSITIVA DIA 17/06/2011.
— E agora?! O que o senhor poderá fazer por nós, professor?!
— Dar um conselho: Leiam os murais.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
ESQUINAS
Gente que arrasta os pés tendo nas mãos porções de
sacolas. É assim quando me esquino na esquina. Cada um muda os passos de um
jeito. As vitrines arrastam os olhares. Impossível não vê-las, não desejá-las,
não contemplá-las. Contradizem-nos. É isso! Elas contradizem-nos. Saímos para
vê-las, não para consumi-las. Os bolsos rezingam. Como eu, ocos. Sou duas ruas.
É assim quando me esquino sem querer me esquinar. As pessoas vão e vêm. Algumas
trazem a cara amarrada, outras abrem caminhos em mim. Com um simples sorriso,
tiram de mim as esquinas e também as anfibologias.
Abro estradas no meu caderno, mas não uso máquinas,
apenas palavras. Desenho rostos. Penso conhecê-los. À distância nossas procuras
são iguais. Cismo com o tempo: será que vão passar as marés antes que as estações cheguem no horário combinado?
De certo chegará. Chegam as chuvas, os ventos também. Na primeira porta,
ingresso. Estou diante dos meus medos. Ela será a minha direção. Meus planos
serão narrados primeiro a ela. Serei capaz de levantar às madrugadas para tal
fato. Noto, através do vidro, não há mais chuva e nem vento. Do lado de fora o
sol sorri com um riso que desata o mundo. Sinto o seu riso dourando as ruas e
também as minhas esquinas. Cheio de futuros, passo pela porta que me acolheu
quando as estações mudaram. Como um ato de devolução, toco a rua com os pés. Do
outro lado da vitrine intuo: já não sou mais o mesmo, vejo pessoas que arrastam
os pés tendo as mãos cheias de sacolas, enquanto disparo risos pela rua, tendo
nas mãos uma Agenda nova.
domingo, 22 de dezembro de 2013
FOLHA SECA
Foto reprodução
...
Chegou, por alguns instantes... Foi... Acrescentando o nada, modificando o tudo
que pensava ser tudo quando era nada e nada voltou a ser, metade de um tempo,
sem tempo.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
O OUTRO LADO DAS PESSOAS (História para aquecer o coração 2)
Minha
avó tinha uma inimiga chamada senhora Wilcox. Elas se mudaram, recém casadas,
para casas vizinhas, numa pequena cidade onde tinham ido viver. Não sei quem
começou a guerra – foi muito antes de eu nascer – e não sei se quando eu nasci,
uns trinta anos depois, elas mesmas se lembravam de quem começara. Mas o duro
embate continuava, com amargas batalhas.
Era
uma contenda travada sem um pingo de educação. Era uma guerra entre senhoras, o
que significa guerra total. Nada na cidade escapou das conseqüências. A igreja
de trezentos anos, que sobrevivera à Guerra Civil, quase foi ao chão quando
vovó e a senhora travaram a batalha pela presidência da Liga das Senhoras. Vovó
ganhou este combate, mas foi uma vitória sem valor, pois a senhora Wilcox,
derrotada, demitiu-se da Liga num acesso de raiva. E qual é a graça de dirigir
alguma coisa se você não pode humilhar sua inimiga mortal?
A senhora Wilcox
venceu a batalha da Biblioteca Pública, conseguindo que a sobrinha Gertrude
fosse indicada como bibliotecária no lugar de minha tia Phyllis. No dia em que
Gertrude assumiu o posto, vovó parou de apanhar livros na biblioteca – dizendo
que estavam “cheios de germes” – e começou a comprar os livros que queria ler.
A batalha da escola secundária terminou empatada. O diretor conseguiu um emprego melhor e saiu antes que a senhora Wilcox o tirasse de lá ou vovó conseguisse mantê-lo lá para sempre.
Além
dessas batalhas mais sérias, aconteciam constantes ataques e recuos na linha de
tiro. Quando éramos crianças e visitávamos vovó, parte da diversão consistia em
fazer caretas para os terríveis netos da senhora Wilcox – que revidavam com
igual virulência – e roubar uvas do lado da cerca dos Wilcox. Corríamos atrás
das galinhas e púnhamos bombinhas nos trilhos do bonde bem em frente à casa dos
Wilcox com a doce esperança de que, ao passar, o bonde provocasse uma explosão
que fizesse a senhora Wilcox morrer de susto.
Num dia histórico,
pusemos uma cobra na calha de chuva dos Wilcox. Minha avó ainda ensaiou um
protesto, mas sentimos sua solidariedade implícita, bem diferente dos veementes
“nãos” de mamãe, e prosseguimos na nossa carreira de crianças endiabradas.
Não pensem nem por um minuto que só havia um lado nessa guerra. Lembrem-se de que a senhora Wilcox também tinha netos bem mais valentões e espertos do que os netos de vovó. Os pestinhas puseram gambás no porão de sua casa e esta foi a agressão mais suave. O fato é que qualquer incidente na casa de vovó sempre foi atribuído aos Wilcox.
Não
sei como vovó poderia ter suportado todos esses problemas se não fosse pelo
caderno feminino do jornal diário de Boston.
A página era uma instituição maravilhosa. Além das usuais dicas de cozinha e conselhos sobre limpeza, havia uma seção de troca de cartas para que as leitoras pudessem desabafar seus problemas. Para que o anonimato fosse mantido, as cartas vinham assinadas com um pseudônimo. O de vovó era Arbusto. Outras leitoras que tivessem o mesmo problema respondiam, dando a solução encontrada e também usando seus pseudônimos, como Aquela que Sabe, X ou qualquer outro. Muitas vezes, exposto o problema, as leitoras ficavam trocando cartas por anos através do jornal, falando sobre filhos, doces em conserva ou a mobília nova da sala de jantar.
Foi isso que aconteceu com a vovó. Ela e uma
mulher chamada Gaivota se corresponderam por vinte e cinco anos, e vovó dizia a
Gaivota coisas que jamais confessara a ninguém – como a vez em que contou que
pensava estar grávida (e não estava) ou quando meu tio Steve pegou piolho na
escola e vovó ficou profundamente humilhada. Gaivota era sua amiga do coração.
Quando
eu tinha dezesseis anos, a senhora Wilcox morreu. Numa cidade pequena, mesmo
que você deteste a vizinha, faz parte das regras se oferecer para ajudar a
família de luto, no que for necessário.
Vovó
atravessou o gramado, deu os pêsames às filhas da senhora Wilcox e começou a
ajudá-las a limpar a já imaculada sala de visitas para o funeral. De repente,
viu aberto sobre uma mesa, num lugar de destaque, um enorme álbum de recortes.
Para seu mais absoluto estarrecimento ali estavam coladas, em colunas
paralelas, as cartas dela para Gaivota e as de Gaivota para ela. A maior
inimiga de vovó fora, na verdade, sua melhor amiga.
Foi
a única vez que me lembro de ter visto minha avó chorar. Eu não sabia naquela
época por que ela estava chorando, mas agora eu sei. Chorava por todos os anos
perdidos que não poderiam ser recuperados. Naquele momento, fiquei tão
impressionada com as lágrimas de minha avó, que não me dei conta da descoberta
fundamental que eu começava a fazer. Uma descoberta que se transformou em
convicção e que tem me ajudado imensamente a viver:
As
pessoas podem parecer insuportáveis. Podem parecer egoístas, mesquinhas e
hipócritas. Mas, se não procurarmos olhá-las sob outra perspectiva, nunca
seremos capazes de descobrir que são também generosas, amorosas e bondosas. E,
se não lhes dermos a oportunidade de revelarem seus aspectos positivos,
ficaremos para sempre privados do bem que eles podem nos proporcionar.
Louise Dickinson
Rich
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