domingo, 21 de dezembro de 2014

A MORTE DEVAGAR - POEMA DE Martha Medeiros atribuído a Pablo Neruda



Esse poema de Martha Medeiros foi atribuído a Pablo Neruda, mas a fundação que cuida das obras do poeta chileno não reconhece sendo dele, mas sim da escritora brasileira.  
Assistam aqui a entrevista completa da escritora no programa Roda Viva no dia 01 - 09 - 14




Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja quem não lê quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.



sábado, 20 de dezembro de 2014

AS MANHÃS DO MEU OUTRO LADO


Abro a manhã, o dia é uma janela. As nuvens se espalham e lentamente acordo. Sou eu dentro de mim. Do lado de fora também há Eu. Com um pouco de tudo do mínimo das pessoas. O tempo se alarga e as pessoas se misturam. Mais adiante eu me misturo a elas e, se não me controlo, perco o Mim. Temos ouvidos demais. Com duas orelhas para ouvir é fácil se perder da gente. Olhos, orelhas e coração são palavras amplas. Maior ainda é o Sentimento que cabe no Mim, mas não se encaixa no Eu. Ele não vem só, traz junto os seus agregados e insere no Eu coisas que não devem caber. Escavo-me. Acho que todos nós somos uma estrada e por ela passa tanta gente. Passam no Passou, surgem no Passando e ficam para o Tempo que não chegou. E como são lembradas?
Abro manhãs. Elas são janelas. Por elas vejo pessoas em todos os tempos, caminhando em mim.
Ganho de presente uma frase: “Se a solidão incomoda, é preciso mudar mesmo; desde que a mudança não mude quem você é”. Leio. Guardo as palavras. As manhãs do meu outro lado se veem protegidas. Alguém enche o meu ser de ternura, nos tempos do meu outro lado.

                                                  

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

PASSAGEM




            O homem nasce sozinho. Pode ser um clichê, mas o homem nasce sozinho. Às vezes convive com irmãos no útero, mas a passagem é individual. Também, às vezes, nasce com a ajuda de um médico, de uma parteira, ou de um qualquer, mas a passagem é individual. O homem cresce, sofre aumento em tudo. No físico. Mesmo os pequenos mudam suas dimensões. Alguns adquirem maior volume na cabeça. Conteúdos contrários também são contados. O fato é que o homem nasce sozinho.
Na travessia, chegam pessoas. Algumas ficam, outras se vão. Não sei revelar por quais motivos. O método é individual.
Mesmo que o homem queira mandar todos para o inferno, ou para céu, não adianta. A passagem é individual. E se o homem quer levar junto algum alguém, para o inferno ou para o céu, não adianta, a passagem é individual.



domingo, 14 de dezembro de 2014

O POETA E O AMOR


O POETA E O AMOR

Eu, não nasci pro amor,
Nasci pra ser poeta.
Poeta sonha
Poeta imagina
Poeta escreve
E até ensina,
Ser feliz na dor.
Eu, descobri,
 Que nesse coração sem cor,
Uma estrada passa,
Trazendo pessoas.
Trazendo o tempo.
E veio nele um dizer
Que me fez saber:
Eu, não nasci pro amor,
Nasci pra ser poeta.
Poeta ama palavras
Poeta ama as rimas
Poeta ama amar
Poeta ama a imaginação.
Imaginar me faz entender:
Eu, não nasci pro amor,
Nasci pra ser poeta.
Poeta é adulto
Poeta é menino
Poeta é homem
Poeta é inconstância
E fascinação.
Poeta mora nas intermitências do nada
Poeta sonha sem data marcada
Poeta, vive nas minúcias do tudo,
Eu, contudo
Aprendo
Me entendo
Desentendo
Me estendo
Sabendo:
Eu, não nasci pro amor,
Nasci pra ser poeta.
Poeta é fingidor
Poeta é Pessoa
Que nessa vida, soa
Como uma passagem secreta,
Eu não nasci pro amor,
Nasci pra ser poeta.

 ♫
     

QUINTAIS


QUINTAIS 
 
Tanto faz
Eu tenho um tanto faz
Para o que eu não sei viver.
♫  ♫
Tudo bem
Eu tenho um tudo bem
É um jeito de aceitar
Já não importo mais
O encanto esmorece
E eu procuro palavras
No som de um tanto faz
Eu me importo mais
Com o som dos sentimentos
Com o olhar que vem de dentro
E com as flores nos quintais.
                                               


sábado, 29 de novembro de 2014

Livro em lançamento - Site da Editora

Autor - NILL CRUZ

Ano - 2014

Gênero - Contos e Crônicas

ISBN - 978-85-8273-984-6
    Páginas - 156




Avaliador Verificado
http://editoramultifoco.com.br/loja/produto/para-ler-enquanto-espera/

http://www.livrariacultura.com.br/p/para-ler-enquanto-espera-42751234
PARA LER ENQUANTO ESPERA
PARA LER ENQUANTO ESPERA (entre contos e crônicas) é mais uma grande obra do querido poeta Nill Cruz. Em linguagem fácil e poética, os textos retratam universos muitas vezes invisíveis a olhos menos atentos, mas percebidos e sentidos pelo poeta. Através de uma leitura agradável, passeamos entre textos reflexivos, interessantes e com um lev
e toque de humor. Textos como PRECISO APRENDER A FICAR COMIGO, DIAZANDO, e O OUTRO LADO DE UM LADO revelam a facilidade do autor em brincar com as palavras, para encontrar a que mais se aproxima do sentimento que deseja exprimir. A obra leva o leitor a refletir também sobre as experiências do cotidiano, com as chateações e as decepções do dia a dia, narradas de forma poética e leve, proporcionando uma leitura prazerosa e fazendo pensar. Textos inteligentes e bem humorados como QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA mostram-nos novas formas de enxergar uma mesma realidade. Que o leitor possa desfrutar dessa leitura e penetrar nesse universo aqui narrada. Read Less

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

VERÔNICA ME FEZ SABER

VERÔNICA ME FEZ SABER


Seu olhar me gritou. Seu sorriso me trouxe ao mundo. Tudo estava “de repente” e, naquele espaço, adolescentes brincavam. No meio de tantas falas, uma frase me conectou à vida: “Eu quero Jardins”. A vida precisa de jardins em todos os tempos e em todos os passos das pessoas. Pensei, sentindo a elevação do tempo em mim. Na intenção de melhorar o meu ser, esqueci que no fundo queremos jardins. É interessante observar uma multidão, cada um segue em uma direção e no final encontram os seus propósitos. Meus passos não seguiam para lugar nenhum, meu coração sim. Parado e com uma caneta na mão, segui uma estrada dentro de mim: as palavras. No momento em que me localizei, sentado, plantei flores. Meu jardim estava árido, as flores murchavam e os canteiros precisavam de uma reforma. Olhai os lírios do campo, Jesus disse quando a multidão lhe apressava. Eu queria pressa e Verônica, jardins.
Os alunos se afastavam lentamente, rumo às salas. As horas iam se desgastando e os segundos matavam o tempo que passava sem querer saber que eu queria “jardins”. Diante dos meus olhos, uma folha em branco encheu-se de júbilo, sabendo que receberia flores em forma de palavras, e foi isso que plantei. Rabisquei-a. As flores brotaram... Ganharam vida...
A folha pareceu sorrir quando Sabrina a tocou. Leu, e o poema fora entregue à menina, que jogando, queria jardins.
Sabrina e Verônica leram o texto em voz alta. Meu coração se derreteu com a surpresa. Faltavam tantas coisas em mim naquela manhã em que eu deixara o hospital. Mas Verônica me fez saber, eu também quero Jardins.