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sábado, 3 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
MENINA NA CALÇADA
A viagem
começa no momento em que se decide viajar. Foi isso que Lucas ouviu e logo após
desligou o telefone. As caminhadas também merecem observações; há entre o ir e
o voltar a trajetória do ser. Não são os passos que nos levam, mas os
pensamentos que nos acompanham durante o caminho. Há quanto ele não a via? Estava
ali por um nome, Lorena. Conheceu-a no aeroporto de Brasília, numa dessas
viagens a trabalho. Ele observou a chuva cair, precisava caminhar. Queria ver a
cidade, as pessoas e se distrair olhando as lojas do lugar. As nuvens foram se
abrindo lentamente. A chuva continuava. Com um cair que não machucava por fora,
mas que molhava por dentro. Fechou o notebook e se colocou na janela do sobrado,
à espera que as pessoas lhe inspirassem uma nova história.
A
rua recebia um muro alto apenas de um lado, como se quisesse proteger suas
flores do resto do mundo. Temos nossos muros para as coisas que nos encantam,
mas que não nos interessam. Para tudo há “um” outro lado, lado este que já se acostumara
com os muros.
Desses dias que se acorda lembrando,
Lorena pensou no escritor. Uma conexão pode nos conectar a alguém pelo simples
fato de encontrar no aeroporto, alguém que não tem pressa de ir, mas que faz do
local no qual está um lugar de contemplação. A livraria, trazendo dúvidas nas
possibilidades. Depois de folhear vários livros ele comprou um. As possibilidades
machucam.
O
céu estava carregado, mas ela precisava da sua caminhada. Andar era mais uma
terapia mental que física.
Um
rabisco de sol inundou a rua molhada, de chuva e de vento. As águas cobrindo a
via eram como um rio, um rio raso, sem mistérios, e o seu espelho domava os
olhos dele. Seus olhos percorreram a extensão da rua alagada, mas não foi a
poesia da chuva contando chuviscos que o prendeu ali. Lorena. Sentada na
calçada, numa tarde de chuva, descansava da sua caminhada. Os cotovelos
apoiados aos joelhos, e com ambas as mãos controlava o para-chuva. Foi numa
levada de vento que ele a reconheceu. Seu rosto se descobriu por alguns
segundos, clareando a certeza que ele concebera no olhar. Linda. A chuva
continuou tocando o para-chuva que a protegia durante o tempo na calçada. A
imagem era uma poesia. Ela continuou sentada e com um sorriso que nega a boca,
esperou-o sentar. A chuva que lhes molhava os pés era digna de contemplação e,
se houve ali um apego, fora de um dia numa calçada, ele reencontrou Lorena,
quando o céu chorava.
♫
domingo, 21 de dezembro de 2014
A MORTE DEVAGAR - POEMA DE Martha Medeiros atribuído a Pablo Neruda
Esse
poema de Martha Medeiros foi atribuído a Pablo Neruda, mas a fundação que cuida
das obras do poeta chileno não reconhece sendo dele, mas sim da escritora
brasileira.
Assistam aqui a entrevista completa da escritora no programa Roda Viva no dia 01 - 09 - 14
Morre
lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias
contradições.
Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja quem não lê quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.
Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja quem não lê quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.
sábado, 20 de dezembro de 2014
AS MANHÃS DO MEU OUTRO LADO
Abro a
manhã, o dia é uma janela. As nuvens se espalham e lentamente acordo. Sou eu
dentro de mim. Do lado de fora também há Eu. Com um pouco de tudo do mínimo das
pessoas. O tempo se alarga e as pessoas se misturam. Mais adiante eu me misturo
a elas e, se não me controlo, perco o Mim. Temos ouvidos demais. Com duas orelhas
para ouvir é fácil se perder da gente. Olhos, orelhas e coração são palavras amplas.
Maior ainda é o Sentimento que cabe no Mim, mas não se encaixa no Eu. Ele não
vem só, traz junto os seus agregados e insere no Eu coisas que não devem caber.
Escavo-me. Acho que todos nós somos uma estrada e por ela passa tanta gente.
Passam no Passou, surgem no Passando e ficam para o Tempo que não chegou. E
como são lembradas?
Abro
manhãs. Elas são janelas. Por elas vejo pessoas em todos os tempos, caminhando
em mim.
Ganho de
presente uma frase: “Se a solidão incomoda, é preciso mudar mesmo; desde que a
mudança não mude quem você é”. Leio. Guardo as palavras. As manhãs do meu outro
lado se veem protegidas. Alguém enche o meu ser de ternura, nos tempos do meu
outro lado.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
PASSAGEM
O
homem nasce sozinho. Pode ser um clichê, mas o homem nasce sozinho. Às vezes convive
com irmãos no útero, mas a passagem é individual. Também, às vezes, nasce com a
ajuda de um médico, de uma parteira, ou de um qualquer, mas a passagem é
individual. O homem cresce, sofre aumento em tudo. No físico. Mesmo os pequenos
mudam suas dimensões. Alguns adquirem maior volume na cabeça. Conteúdos
contrários também são contados. O fato é que o homem nasce sozinho.
Na travessia, chegam pessoas. Algumas ficam, outras se vão. Não sei
revelar por quais motivos. O método é individual.
Mesmo que o homem queira mandar todos para o inferno, ou para céu, não
adianta. A passagem é individual. E se o homem quer levar junto algum alguém,
para o inferno ou para o céu, não adianta, a passagem é individual.
domingo, 14 de dezembro de 2014
O POETA E O AMOR
O
POETA E O AMOR
Eu,
não nasci pro amor,
Nasci
pra ser poeta.
Poeta
sonha
Poeta
imagina
Poeta escreve
Poeta escreve
E até
ensina,
Ser feliz
na dor.
Eu,
descobri,
Que nesse coração sem cor,
Uma
estrada passa,
Trazendo
pessoas.
Trazendo
o tempo.
E veio
nele um dizer
Que me
fez saber:
Eu,
não nasci pro amor,
Nasci
pra ser poeta.
Poeta
ama palavras
Poeta
ama as rimas
Poeta
ama amar
Poeta
ama a imaginação.
Imaginar
me faz entender:
Eu,
não nasci pro amor,
Nasci
pra ser poeta.
Poeta
é adulto
Poeta
é menino
Poeta
é homem
Poeta
é inconstância
E fascinação.
Poeta
mora nas intermitências do nada
Poeta
sonha sem data marcada
Poeta,
vive nas minúcias do tudo,
Eu,
contudo
Aprendo
Me entendo
Desentendo
Me estendo
Sabendo:
Eu, não
nasci pro amor,
Nasci
pra ser poeta.
Poeta
é fingidor
Poeta
é Pessoa
Que
nessa vida, soa
Como
uma passagem secreta,
Eu
não nasci pro amor,
Nasci
pra ser poeta.
♫
QUINTAIS
Tanto faz
Eu tenho um tanto
faz
Para o que eu não
sei viver.
♫ ♫
Tudo bem
Eu tenho um tudo bem
É um jeito de
aceitar
♫
Já não importo mais
O encanto esmorece
E eu procuro
palavras
No som de um tanto
faz
♫
Eu me importo mais
Com o som dos
sentimentos
Com o olhar que vem
de dentro
E com as flores nos
quintais.
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