quinta-feira, 20 de abril de 2017
quinta-feira, 6 de abril de 2017
AS PESSOAS E OS PONTOS
Numa
viagem. Viver é estar numa viagem. Dentro de um veículo. Dentro do tempo. A
passagem de um dia a outro, é uma viagem. Raramente descemos no ponto errado.
Existe a escolha, a saída e a chegada.
Existe
as paradas que observamos pela janela, e existe as paradas que descemos para
esticar as pernas, comprar algo. Há pessoas que aproveitam as paradas para
fumar um cigarro, beber um trago, ou observar a cidade, ao que a vista alcança.
Após
as paradas, retomamos a viagem. Há também as paradas para uma conexão. Nessas
viagens, encontramos pessoas. Quais as que nos fazem parar e firmar uma
conexão? Quais as que apenas a olhamos pela janela? Quais as que nos fazem
descer e desistir da viagem?
Quais
as que entram no veículo, se encaixa em nosso tempo e segue conosco, para
qualquer destino?
Há
tantas perguntas. E uma dessas indagações, que se tornaram respostas, são as
pessoas que nos fazem descer no ponto errado. Fazendo acreditar que poderiam
seguir, quando apenas não queriam que tivéssemos destinos.
Uma
viagem. Estamos numa viagem, mas somos tão bobos quando insistimos em levar
conosco, pessoas que não deseja ir a lugar nenhum.
quarta-feira, 1 de março de 2017
RECORTES DE UM "MOMENTO" ESTRANHO
Todas
as notícias ficaram velhas. Envelheceram os gestos, as expressões e os
sorrisos. Os olhos não envelheceram, mas ficaram cansados. Os ouvidos não acumularam
tempo, perderam os ânimos. Nenhuma música nova. Nem um filme. Esculturas.
Literaturas. Nenhuma palavra excêntrica.
Todas
as religiões ficaram velhas. A fala. As regras. As explanações.
O
novo, um velho novo.
Tudo
que era novo.
O
novo que era tudo.
O
que era, e que, agora é, é simplesmente um “É” velho.
Todas
as notícias chegaram rápidas, mas num rápido velho. As novidades foram
espalhadas velhosamente, confundindo os gostos. As possibilidades aumentaram,
apressando a pressa do homem. As rotinas rotinaram, envelheceram. As inovações
não provocaram risos, não acenderam desejos, nem despertaram olhares. Ficaram
velhas as confissões, as declarações, as opiniões, as insinuações, as
posições... as manifestações, as aproximações, as agressões e os afastes.
O
amor ficou velho.
Não,
não! O amor ficou novo demais. Novar muito acende o medo. O amor ficou “assim”,
abarrotado de medo: como quer um “assim” avelhantado.
As
palavras.
Essas
declararam toda forma de velhice. Aquelas delicadas, que chegaram vestidas de
carismas, soprando delicadezas, caíram em desuso.
Todos
os eu-te-amo ficaram velhos.
Se dispersaram dos
corações. Saíram por aí. Num aí sem apego, sem obrigações. Envelhecendo os
encontros. Abrindo silêncios. Anoitecendo as manhãs das tardes que envelhecem,
por não ter recortes novos.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
O QUE SIGNIFICA “INSTANTE”
As vezes não observamos quando uma pessoa aproxima de nós. Nem
reparamos também como as pessoas se afastam... nos deixam... se vão... dentro
de um para sempre, um para nunca, ou um para daqui a pouco.
As vezes, e é as vezes mesmo. Não reparamos como elas ficam, permanecem, assim do nosso lado,
à distância de um abraço, ou de cicio de conversa.
As vezes deixamos que escritores e poetas revelem o significado
dos VERBOS:
Chegar... Permanecer... Ficar... Ir... Partir... Estar... Ser.
A palavra PERMANECER é a mais longa dos verbos de LIGAÇÃO, mas
ela cabe dentro do INSTANTE. E o Instante também pode ser isso: um VI e VER que
dialoga com o SER quando a vida exige em seus instantes o verbo VIVER.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
O TEMPO DESCALÇO
Pensava no rosto dela com os cabelos
ofuscando o olhar. Sentada na parte alta do salão, seu rosto exercia movimentos
suaves, assumindo várias direções, protegendo livros e crianças. Os livros
sobre as mesas, espalhando em ambos lembranças literárias. Adolescentes
sorriam, sorriam e falavam alto. As palavras eram despejadas com ansiedades e
risos. As crianças agitavam-se, desejando tocar os livros.
Ela
levantou-se e com um sorriso, caminhou entre cadeiras e tapetes. Após olhar a
sua volta, se escondeu atrás de um livro. O chão vazio. Chão branco. Convidando
pés descalços. Após observá-la, tirou ele os sapatos e também se refugiou num
livro. O chão limpo, branco. Feito ruas: tapetes, mesas e cadeiras preenchiam
parte da sala. O rapaz levantou novamente os olhos, a mesa repleta de
histórias. Seu olhar ultrapassou os livros, ela lia para um menino.
O rapaz
carregado-de-tempo encontrou seus livros de infância. Mergulhou nas lembranças.
O livro não apenas estimulara a imaginação, levou-o ao tempos-menino. Abriu um,
depois outro e depois outro. A história não estava somente grafada nos livros,
o livro estava escrito na sua história. “Ser menino no tempo adulto é bem
melhor que ser adulto nos tempos de menino”, pensou.
Ele afastou
com os pés os sapatos e, como as crianças, sentou-se no chão. Limpo, o chão
branco, convidando sentar. Observou os adolescentes. As crianças em silêncio,
mergulhadas nos livros. Ela sentou-se ao lado do rapaz. Os cabelos cobriam
parte do rosto, mas não escondiam o seu sorriso. Os lábios desenhados de batom
nunca visto, realçava sua boca. Após ouvir o que ela tinha para ler, o rapaz
sorriu.
A tarde
caminhou entre eles conectando gerações. Sentaram em uma semi- elevação do
piso, observando crianças e livros. O chão limpo. Branco o chão, convidando pés
descalços. Ela tirou os sapatos. Ele observou os pés dela tocando o chão limpo
com delicadeza feminina.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
O QUINTO SUSPEITO - RUBEM FONSECA
Rubem Fonseca
É um contista, romancista, ensaísta e
roteirista brasileiro.
Fonte: Livro O romance morreu. Companhia das Letras, 2007, (pg. 157).
Hoje publico
aqui O QUINTO SUSPEITO, uma das
crônicas mais linda do Rubem Fonseca.
Costumo usar, alternadamente, dois
relógios de pulso. O que prefiro, por motivos sentimentais, mostra apenas o dia
do mês. O outro, além do dia do mês, tem o dia da semana. Desde criança nunca
lembro, sem fazer algum esforço mnemônico, qual é o dia do mês. Nos últimos
anos, trabalhando apenas em casa, também não consigo recordar, sem mobilizar
minha memória, o dia da semana.
Rotineiramente,
depois de usar algum tempo o relógio que mostra apenas o dia do mês, cansado de
ficar verificando nos meios disponíveis qual o dia que está transcorrendo – é
sábado ou domingo? –, volto a usar o relógio que informa também o dia da
semana.
Ponho
sempre o relógio que não estou usando sobre uma mesinha da sala. Segunda-feira,
depois de usar um dos relógios por vários dias, fui trocá-lo pelo que mostra,
além do dia do mês, o dia da semana, mas ele não estava na mesinha. Eu tinha
certeza absoluta de que o vira naquele local. Alguém tinha tirado o relógio
dali. A moça que trabalha na minha casa, ao ser indagada, disse que não havia
mexido no relógio. Assim como os meus filhos, que constantemente me visitam,
ela está acima de qualquer suspeita. Mas eu tinha quatro suspeitos, pessoas que
haviam estado naquela sala nos últimos dias.
O
primeiro suspeito: o técnico que veio consertar as cortinas. Ele possuía uma
cara patibular, de alguém que está tramando um crime ou sofrendo de um
tormentoso remorso. Só que, desde Lombroso (1835-1909), está totalmente desmoralizada
a tentativa de descobrir alguma predisposição à delinquência analisando as
características físicas do indivíduo. Não existem caras honestas se contrapondo
a caras desonestas. Existem, apenas, convencionalmente, caras feias e caras
bonitas. Mas podia ser ele.
O
segundo suspeito: o eletricista. Seu olhar era esquivo, como o de um bicho em
situação de perigo. Olhava de esguelha, fingindo que não estava observando
coisas e pessoas à sua volta. Quando eu me aproximava, ele parava de trabalhar
e ficava contraído, como se fosse dar um bote ou fugir. Eu tinha de reconhecer,
porém, que se ele não agisse com cautela corria o risco de levar um choque elétrico.
Mas podia ser ele.
O
terceiro suspeito: o relojoeiro que veio consertar o relógio da parede, uma
velha peça mecânica em forma de oito que fica sobre a mesinha onde estava o relógio
de pulso. Era um homem gordo, de aspecto bonachão. Costumamos achar todos os
gordos felizes, confiáveis o bondosos. – ao contrário dos magros, que desde
Shakespeare são vistos como famintos e perigosos. Mas esse é mais um embuste da
falsa ciência conhecida como fisiognomonia. (Quem estiver interessado nessa “arte
de conhecer o homem segundo as feições do rosto.”– e parece que muita gente ainda
acredita nessa falácia do século XVIII –, que leia Arte de estudar a fisionomia, de J.K. Lavater. É um livro
interessante.) O relojoeiro era gordo e bonachão, mas parecia ser ele.
O
quarto suspeito: o rapaz da farmácia, que, para entregar-me uma encomenda no
local da casa onde eu estava trabalhando, passou pela mesinha em que estava o
relógio. Ele ficava olhando em volta, alerta, astuto, como um desses
assaltantes de rua. Nem a paisagem que se via da janela escapou do seu olhar
curioso. Podia ser ele.
Eu
tinha uma lista de quatro pessoas com oportunidade de cometer aquele crime. A questão
era descobrir o delinquente. Então me lembrei das aulas de Direito penal, na
faculdade de Direito, das nossas discussões de que não havia delinquentes, mas
indivíduos anti-sociais, nem crimes, mas fatos indicativos da
anti-sociabilidade do autor. E lembrei-me também do brocardo (estou citando de
memória): “O testemunho é a prostituta das provas”, testemunho incluindo as
declarações da vítima e a confissão de autoria.
Para
provar essa teoria de que a prova testemunhal não é fidedigna, foram feitas
muitas pesquisas curiosas. Estas duas, entre várias, são clássicas:
Uma
mulher vestida de vermelho, com braço numa tipóia, atravessa uma sala onde
estão várias pessoas e desaparece. Mais tarde os pesquisadores perguntam aos
presentes se viram uma mulher passar pela sala e como ela estava vestida. Conforme
as respostas – alguns nem sequer a viram –,
ela estava de preto, cinza, bege e uma pessoa disse que a viu passar um
homem vestido de vermelho. O braço na tipóia passou totalmente despercebido.
Um
professor de Direito e dois alunos criam este ato dramático: os dois alunos, no
meio da aula, de acordo com rigorosa marcação teatral, começam uma violenta
discussão e um deles, de acordo com o script,
saca um revólver e atira no outro, que também está armado e revida atirando por
sua vez. Os dois caem ao chão feridos e pretensamente são transportados para um
hospital. O professor pede que os alunos permaneçam na sala para que a polícia
tome conhecimento exato do que aconteceu. Os alunos são ouvido em separado. Nenhum
depoimento coincide. A iniciativa da agressão ora é atribuída a um, ora outro;
as palavras ensaiadas que os brigões trocaram na discussão são reproduzidas de
maneira diferente e muitas são inventadas pelos depoentes.
Ou
seja: o testemunho é mesmo a prostituta das provas. Caberia aqui uma discussão
filosófica sobre os motivos pelos quais o mesmo objeto ou situação é percebido
de maneira diferente por pessoas diferentes, mas ficaria muito longo. A questão
é que, depois de pensar isso tudo, concluí que até então eu havia deixado de
lado um quinto suspeito.
O
quinto suspeito era eu. O meu testemunho, a minha certeza absoluta de que havia
visto o relógio de pulso na mesinha talvez não expressasse a verdade. Então comecei
a solucionar o mistério partindo do quinto suspeito. E isso não apenas foi
confortável espiritualmente, pois desconfiar dos outros é muito desagradável,
como acabou resolvendo a charada: eu havia inconscientemente, por algum motivo,
deixado de seguir a rotina e posto o relógio em outro local. Minha certeza de
que o vira na mesinha não passara de mais um equívoco testemunhal. Estou com o
relógio no pulso, neste momento. Sábado, dia 3.
Fonte: Livro O
romance morreu. Companhia das Letras, 2007, (pg. 157).
sábado, 29 de outubro de 2016
É SÓ DAR UM CLIC
Há
muitas informações. Não dá mais pra dizer que não soube, ou que esqueceram de
avisar. É só dar um Clic. Se o tempo é uma questão de prioridade ou se
prioridade é uma questão de tempo, é só dar um Clic.
Dizer
também que não achou, que não sabe onde. Na era da informática, é só dar um
Clic. Em Inglês, Português, Espanhol, Mandarim, qualquer língua. O ato é o
mesmo. Pode ser no instante de um instante, um momento depois, no antes do
antes, no após do após. O importante é dar um Clic.
No
tempo de acordar, no instante de dormir. Antes de chegar ou antes de sair. No
período em que nem se chega nem se sai. Aquele momento em que nos perdemos de
nós mesmos, aquela ocasião em que nos achamos em nós mesmos. É só dar um Clic.
Achar-se e perder-se é constante. Somos feituras de outros: metade opiniões, a
outra, busca ser completa.
Mas
antes de dar um Clic, pense. E se possível, repense. Se houver motivos, ‘despense’.
Mas o melhor é refletir. Por que mesmo que não sei? Por que mesmo que não
procurei? Por que foi que não visitei?
Na
era das redes sociais, não cabe dizer que não viu, nem que não olhou, ou não
encontrou. No tempo das informações, não dá para vestir a Inércia com o manto
de um “não deu”. Não querer e não importar possui o mesmo sentido de um “tô nem
aí”. Ninguém esquece o que realmente importa. E para saber o que é importante...
Nesses
dias de muitas visualizações é fácil Curtir
alguns Likes, abrir links, fazer downloads, usar o Iphone e consultar alguns amigos. E se quiser que
tudo corra bem, é só dar um Clic.
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