segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

NA QUITANDA COM GULLAR


Foi por acaso que me deparei com Gullar na livraria. Saí de lá e entrei em sua Quitanda. Tive a sensação que estava visitando novamente o MASP em São Paulo. Havia saído com a intenção de procurar por mim nas ruas, já que eu não me encontrava dentro de casa. Escapei. Sem rumo, peregrinei sem saber o que fazer ou onde parar. À minha frente, mas para a direita, uma padaria, com promoções e cafés variados.
Poderia sentar ali, me esparramar sobre a cadeira e esperar por mim, passando por uma das vias em ida e, ou volta, ou simplesmente pedalando em círculos com uma bicicleta infantil. Poderia puxar conversa com Manoel Bandeira que por muito tempo frequentou lugar como aquele e até pensei convidar o Chico para passar com sua Banda. Mas o que fiz foi virar para a esquerda e, atraído por gritos de “Vai, Curíntia!” , mirei o bar abarrotado de gente que se dividia entre cerveja e a copa São Paulo de futebol Júnior. Ali eu não estava. Nem estaria se me deixassem sentar para um papo com Gullar.
Vilhena possui alguns lugares onde eu consigo esconder de mim. Não vou revelar esse recinto para que, você que me conhece, não venha delatar o meu cantinho preferido. Distante do celular, afugentado das redes sociais, e vazio dos amigos virtuais, coube a mim se esconder do músico que, indisposto com a música, posa de cinéfilo na Flix.
O fato, isso é fato mesmo, é que caminhei por um bom tempo pelas ruas, buscando encontrar um lugar que me devolvesse para mim. Vanzolini em sua Ronda tinha a noite, eu, uma simples tarde cinzenta com cara de chuva que traz o frio. Como disse antes, sai pelas ruas sem saber onde ir, mas fui salvo pelo automatismo que me levou a uma livraria e me devolveu para mim. No meio de tantos livros sorrindo, abri um riso daqueles que espanta Cem anos de Solidão, escolhi um Gullar, andei com ele até um bar vazio, e numa mesa discreta, me fiz existir na Alquimia da sua Quitanda.


sábado, 6 de outubro de 2018

EU TENHO DISTÂNCIAS








Eu tenho distâncias. Distâncias curtas, distâncias longas e distâncias invisíveis. Sim, invisíveis porque as visíveis são lidas por olhares que não quer aproximações, nem encontros que marcam instantes imorríveis. Eu tenho distâncias, mas vivo perto dos sorrisos que me olham, sem distâncias.

E se você chegasse mais cedo
E trouxesse o sorriso
Que a distância escondeu na semana.

E se você chegasse mais cedo
E trouxesse aquele abraço
Que esperei a semana inteira.

E se você chegasse mais cedo
E mais cedo me recitasse Cecília
E mais cedo ainda me ouvisse cantar.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

INTRODUÇÃO AO GRITO



INTRODUÇÃO AO GRITO

Para todas as coisas há um começo. Não falo de coisas inventadas, até para inventar é preciso começos. Começados sem evidenciar que é um início. Tenho a manhã e tenho janelas e tenho pássaros e tenho louças na pia e tenho na torneira gotejares de existência. A gota germina. Brota. Ressurge imperceptível de uma torneira desgastada. Da mesa, observo a água surgindo de suas entranhas. Sobre minha cabeça há um relógio. Ele também possui seus princípios. Os ponteiros seguem obedecendo a conta dos segundos e definindo minutos. Sei que os centésimos estão neles. Meus olhos não os veem, mas meu corpo sente. Sabe que envelhece aos poucos.
As gotas seguem, despencam sem pressa. Os coágulos também possuem seus inícios. Sinto as moléculas da água se reeditando, meus olhos as absorvem. Os pássaros com seus ruicantos invadem meu silêncio, sinto, elevo-me, mas não me perco da gota. Sou testemunha de um ato. De vida e de morte.
Acho que as palavras são como as gotas. Elas rasgam nossas entranhas. Regurgitam, até virar verbo e se fazer carne. Essa mínima minúscula partícula do tempo que define nosso direito de ser, tece o instante, recorta momentos.
Respeito o momento da gota. Cada uma tem seu instante. Elas brotam. E chegam no seu ponto. E fazem do seu acontecer um acontecido parto. Golpeiam o zinco. E morrem apressadamente devagar. Em silêncio se transformam e em silêncio se desfazem. Só há barulho quando algum objeto alheio ao seu habitat cruza o seu caminho.
Esqueci de propósito uma colher em baixo da torneira só para ouvir o morrer das gotas. Atento ás intermitências, morri junto, como cada uma. Inventei um tempo para observar as gotas. Acordar com vontade de conversar com o tempo é ser gota. O tempo nunca tem tempo. E se sabe que precisa parar não se perde com coisas vãs. Perder tempo é do homem que nasce morrendo.
Como passagem contínua, penso nos encontros. Eles se formam como gotas. Como um ato empírico, penso nos espermas, nos óvulos, nos fetos e no homem. No homem que chega e no homem que vai. No que cuida e no que abandona. Já fui molécula dentro de um corpo. Chegou um momento em que foi preciso ser expulso para ser como gota nesse mundo. Ser expulso tem suas vantagens, a gente se torna mundo, ou dono dele. Um anjo caído é de tempo infinito. Não conheço o tempo dos anjos, imagino-o como o das gotas. Acho que morrem de prazos iguais.  Se a vida é perfeita, a morte também é. A beleza da existência está na ordem, mas não há existência bela se não houver uma medida de caos.
As gotas se formam delicadamente, criam um perfil e caem.
Saio das vias que levam á coagulação de um músculo de água, para me ater a beleza de ser gota formada. No instante em que ela é gota, a nenhuma maravilha se compara. Ela tem tão pouco tempo para ser bela, que faz da espera esperada, um cristal. Capaz de transformar o olhar do ser que só tem o instante para ser tudo, mas que se dispersa ouvindo gritos na introdução.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

TO'TAL ADVERBIANDO - POESIA



                     Totalmente indo
                          Absurdamente voltando
                 Razoavelmente rindo
             Inteiramente chorando
    Negligentemente saindo
        Displicentemente chegando
       Aborrecidamente pedindo
        Relaxadamente usando
       Totalmente ido
                                       Absurdamente voltado
                   Rasuradamente perdido
                                          Preocupadamente achado
                                                           Desatentamente amigo
Chateadamente largado 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

E JOSÉ RESPONDE, DEPOIS DE TANTO TEMPO



Sei que me perguntas, todos perguntam e já faz tempo, E agora, José? E agora, José?
Mas quer mesmo saber?
Tem tempo para ouvir?
Vai interpretar da forma certa?
O povo sumiu, sim.
Com a noite fria
A festa terminada
E a luz apagada
Não havia motivos para permanecer.
Quer mesmo saber?
Amar, é um protesto contra o ódio
Faço versos, sim. É meu grito contra o vazio
Os outros zombados é a minha outra metade
Tenho nome, mas você nunca quis saber.
E agora, José?! Viu? O teu julgo lembrou meu nome
Estou sem mulher, sim!
Como Jesus, Paulo, os padres... Mario Quintana... e daí?!
Mas pensando, carinho recebo quando ouço: E Agora, José?
Sartre me ensinou a conviver com as respostas
O que importa são as perguntas que faço a mim mesmo
Beber, fumar, cuspir, é uma opção.
Tudo posso, no optar que me fortalece
A noite agora é quente. Aquecimento global
O bonde não vem mais, o Uber, sim.
O Riso?! Haha! Veio, sim.
Você precisa assistir o Adnet, ler o Veríssimo...
A utopia não veio
Mas posso vê-la na política, na justiça...
Tudo não acabou, modificou-se
Tudo fugiu? Não! Ninguém mais foge, ninguém mais sente culpa.
Mofou? Ah, isso sim. As leis...os políticos... o sistema...
E você me pergunta: E agora, José.

Eu que pergunto, e agora?
Tenho palavras doces
E instantes de febre quando tenho que fazer jejum
E não dizer nada
O Pondé me alertou do Vitimismo.
Minha gula não é um defeito, ela sustenta meu edifício inteiro
Minha biblioteca é meu Eco.
Meu diário mínimo
Minha lavra de ouro
Meu terno de vidro
Incoerência? Ódio?
Seja coerente e se sentirás odiado, amigo

Você está certo em alguma coisa, não existe porta
Pedro tinha as chaves na mão e não abriu porra nenhuma
Quis morrer no mar, ensinaram ele andar sobre as águas
Quanto voltar para Minas, Minas não existe mais?!
Neves em Minas! Aquecimento Global!
É. Putz! E agora, José?

Do que adianta gritar, gemer?
Tocar uma valsa vienense,
parar no sinal e ouvir sertanejo-universitário, ou funk?
Ai, a gente volta para casa
E não quer dormir, mas morrer
Funk?!?!? Sertanejo universitário?!?!
Ouvir isso?! É duro, José.

Sozinho no escuro? Não.
Agora tenho um celular.
Ele tem luz e me conecta com o mundo
Bicho do mato?
O que mata são os bichos da cidade
Sua teogonia veste as paredes de buracos
Para vigiar a polícia.
Sem cavalo? Não, não.
Tenho um Rocinante branco
Que anda devagar
E marcha sobre as pedras no caminho
Para onde? Para uma cidade qualquer.




sexta-feira, 30 de junho de 2017

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Lá onde o tempo fica só
e o silêncio conversa com a solidão
É
Lá onde o diálogo é um riso
e os gestos rabiscam o coração
É
Lá onde a pressa possui calma
e a correria não tem condução
É
Lá onde o medo é coragem
e a força despenca rumo ao chão
É
Lá onde um ‘lá’ é infinito
e um para sempre é uma simples razão
É
Lá onde o efêmero é uma sílaba
e o ritmo é um corpo sem ação
É
Lá onde dança a vida
e o Sim deseja ser um Não

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domingo, 18 de junho de 2017

A DATA DE VIVER


Um dia a gente sabe da gente, e não diz nada;
O muito saber, o pouco saber, o que são fatos.

Um dia conhecemos a gente, e não falamos nada;
Ser quando ou ser agora, ou ser depois. O que importa é o ato.

Um dia conversamos com a gente, e não proferimos nada;
O tempo, o momento, o que são os gestos.
Mesmo nos dias em que se aplaudem as metades, há pessoas se dando por inteiras; os gestos viram atitudes, as atitudes viram hábitos e os hábitos viram viver.

Um dia nos contemplamos diante dos espelhos, no outro, nos encontramos nas vitrines. A gente troca os espelhos, se apega aos retrovisores. Troca os silêncios, muda o vocabulário, conserta as palavras, enfim, a gente muda. Troca de lugar, troca até de sentimentos;

Um dia estamos indo e no mesmo estamos voltando;
Ir e vir, se desapegar dos momentos. Estar é nunca saber-se compreender. Estando já é mover-se, mesmo que seja rumo ao nada.

Um dia esperamos nos encontrar, um dia a gente se encontra, um dia a gente é encontro, no outro é simplesmente “um dia”.
Um dia passamos pela gente e nem sequer olhamos, apressados, não olhamos nada. O coração anda devagar em tempos de corpos apressados;

Um dia a gente sente falta da gente. E sentamos com a gente, e despejamos tudo, e gritamos alto, e até chutamos nossas barracas.

Um dia queremos só a gente, da forma como somos.

Um dia queremos ser tudo, para preencher o nada, enquanto se é tudo.