A menina nem esperou que o homem,
suponho ser o seu pai, terminasse a fala e já disparou: ninguém manda em mim. O
homem encarou a mulher, imagino ser a mãe, e bufou, ora seguindo a menina com
os olhos, ora olhando o prato dela por terminar. Gesticulou um “o que eu fiz” para
a mãe que se limitou em levantar os ombros e espalmar as mãos. A menina
caminhou por entre as mesas do restaurante com o celular na mão indo de
encontro a uma tomada. Achando, sentou e mergulhou no aparelho. A frase dela
ecoou em minha cabeça como aquelas músicas chatas de um refrão único que o cara
do lado coloca no seu celular e o som repete tanto que, mesmo a cabeça
recusando, a mente canta. Nesse caso, não mandamos na mente. O senhor
(imagino), pai da menina, aparentava ter cinquenta anos e o domínio das suas
experiências. Atendia o celular em intervalos relativos de três em três
minutos, e num desses atendimentos, pude ouvir: calma! Segura, aí! Já estou
indo. Desligou a chamada, anotou alguma coisa no aparelho, olhou firme para a
mulher em sua frente e disse: o chefe mandou que eu pegue o carro dele na
garagem. A mulher estreitou os olhos no homem: você insistiu que eu viesse e ordenou
trazer a Júlia, depois pergunta ainda: o que eu fiz? O casal fez menção de sair
e a menina os seguiu sem desgrudar os olhos do celular. Com a sensação de que
ninguém manda em mim, retirei meu cartão e paguei o almoço. Voltei a redação do
jornal e logo escutei o diretor cobrando. Só faltava o meu texto para fechar a
edição.
domingo, 7 de abril de 2019
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
NA QUITANDA COM GULLAR
Foi por acaso que me deparei
com Gullar na livraria. Saí de lá e entrei em sua Quitanda. Tive a sensação que
estava visitando novamente o MASP em São Paulo. Havia saído com a intenção de procurar
por mim nas ruas, já que eu não me encontrava dentro de casa. Escapei. Sem
rumo, peregrinei sem saber o que fazer ou onde parar. À minha frente, mas para
a direita, uma padaria, com promoções e cafés variados.
Poderia sentar ali, me
esparramar sobre a cadeira e esperar por mim, passando por uma das vias em ida
e, ou volta, ou simplesmente pedalando em círculos com uma bicicleta infantil. Poderia
puxar conversa com Manoel Bandeira que por muito tempo frequentou lugar como
aquele e até pensei convidar o Chico para passar com sua Banda. Mas o que fiz
foi virar para a esquerda e, atraído por gritos de “Vai, Curíntia!” , mirei o
bar abarrotado de gente que se dividia entre cerveja e a copa São Paulo de
futebol Júnior. Ali eu não estava. Nem estaria se me deixassem sentar para um
papo com Gullar.
Vilhena possui alguns
lugares onde eu consigo esconder de mim. Não vou revelar esse recinto para
que, você que me conhece, não venha delatar o meu cantinho preferido. Distante do
celular, afugentado das redes sociais, e vazio dos amigos virtuais, coube a mim
se esconder do músico que, indisposto com a música, posa de cinéfilo na Flix.
O fato, isso é fato
mesmo, é que caminhei por um bom tempo pelas ruas, buscando encontrar um lugar
que me devolvesse para mim. Vanzolini em sua Ronda tinha a noite, eu, uma
simples tarde cinzenta com cara de chuva que traz o frio. Como disse antes, sai
pelas ruas sem saber onde ir, mas fui salvo pelo automatismo que me levou a uma
livraria e me devolveu para mim. No meio de tantos livros sorrindo, abri um
riso daqueles que espanta Cem anos de Solidão, escolhi um Gullar, andei com ele
até um bar vazio, e numa mesa discreta, me fiz existir na Alquimia da sua Quitanda.
sábado, 6 de outubro de 2018
EU TENHO DISTÂNCIAS
♫
E se você chegasse mais cedo
E trouxesse o sorriso
Que a distância escondeu na semana.
E se você chegasse mais cedo
E trouxesse aquele abraço
Que esperei a semana inteira.
E se você chegasse mais cedo
E mais cedo me recitasse Cecília
E mais cedo ainda me ouvisse cantar.
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
INTRODUÇÃO AO GRITO
INTRODUÇÃO AO GRITO
Para todas as coisas há um começo. Não falo de coisas inventadas, até
para inventar é preciso começos. Começados sem evidenciar que é um início. Tenho
a manhã e tenho janelas e tenho pássaros e tenho louças na pia e tenho na
torneira gotejares de existência. A gota germina. Brota. Ressurge imperceptível
de uma torneira desgastada. Da mesa, observo a água surgindo de suas entranhas.
Sobre minha cabeça há um relógio. Ele também possui seus princípios. Os
ponteiros seguem obedecendo a conta dos segundos e definindo minutos. Sei que
os centésimos estão neles. Meus olhos não os veem, mas meu corpo sente. Sabe que
envelhece aos poucos.
As gotas seguem, despencam sem pressa. Os coágulos também possuem seus
inícios. Sinto as moléculas da água se reeditando, meus olhos as absorvem. Os
pássaros com seus ruicantos invadem meu silêncio, sinto, elevo-me, mas não me
perco da gota. Sou testemunha de um ato. De vida e de morte.
Acho que as palavras são como as gotas. Elas rasgam nossas entranhas.
Regurgitam, até virar verbo e se fazer carne. Essa mínima minúscula partícula
do tempo que define nosso direito de ser, tece o instante, recorta momentos.
Respeito o momento da gota. Cada uma tem seu instante. Elas brotam. E
chegam no seu ponto. E fazem do seu acontecer um acontecido parto. Golpeiam o
zinco. E morrem apressadamente devagar. Em silêncio se transformam e em
silêncio se desfazem. Só há barulho quando algum objeto alheio ao seu habitat
cruza o seu caminho.
Esqueci de propósito uma colher em baixo da torneira só para ouvir o
morrer das gotas. Atento ás intermitências, morri junto, como cada uma.
Inventei um tempo para observar as gotas. Acordar com vontade de conversar com
o tempo é ser gota. O tempo nunca tem tempo. E se sabe que precisa parar não se
perde com coisas vãs. Perder tempo é do homem que nasce morrendo.
Como passagem contínua, penso nos encontros. Eles se formam como gotas. Como
um ato empírico, penso nos espermas, nos óvulos, nos fetos e no homem. No homem
que chega e no homem que vai. No que cuida e no que abandona. Já fui molécula
dentro de um corpo. Chegou um momento em que foi preciso ser expulso para ser
como gota nesse mundo. Ser expulso tem suas vantagens, a gente se torna mundo,
ou dono dele. Um anjo caído é de tempo infinito. Não conheço o tempo dos anjos,
imagino-o como o das gotas. Acho que morrem de prazos iguais. Se a vida é perfeita, a morte também é. A
beleza da existência está na ordem, mas não há existência bela se não houver
uma medida de caos.
As gotas se formam delicadamente, criam um perfil e caem.
Saio das vias que levam á coagulação de um músculo de água, para me ater
a beleza de ser gota formada. No instante em que ela é gota, a nenhuma
maravilha se compara. Ela tem tão pouco tempo para ser bela, que faz da espera
esperada, um cristal. Capaz de transformar o olhar do ser que só tem o instante
para ser tudo, mas que se dispersa ouvindo gritos na introdução.
terça-feira, 31 de outubro de 2017
TO'TAL ADVERBIANDO - POESIA
Totalmente
indo
Absurdamente
voltando
Razoavelmente
rindo
Inteiramente
chorando
Negligentemente
saindo
Displicentemente
chegando
Aborrecidamente
pedindo
Relaxadamente
usando
Totalmente
ido
Absurdamente
voltado
Rasuradamente perdido
Preocupadamente
achado
Desatentamente
amigo
Chateadamente largado
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
E JOSÉ RESPONDE, DEPOIS DE TANTO TEMPO
Sei
que me perguntas, todos perguntam e já faz tempo, E agora, José? E agora, José?
Mas
quer mesmo saber?
Tem
tempo para ouvir?
Vai
interpretar da forma certa?
O povo
sumiu, sim.
Com a
noite fria
A
festa terminada
E a
luz apagada
Não
havia motivos para permanecer.
Quer
mesmo saber?
Amar, é
um protesto contra o ódio
Faço
versos, sim. É meu grito contra o vazio
Os
outros zombados é a minha outra metade
Tenho
nome, mas você nunca quis saber.
E
agora, José?! Viu? O teu julgo lembrou meu nome
Estou
sem mulher, sim!
Como Jesus,
Paulo, os padres... Mario Quintana... e daí?!
Mas pensando,
carinho recebo quando ouço: E Agora, José?
Sartre
me ensinou a conviver com as respostas
O que
importa são as perguntas que faço a mim mesmo
Beber,
fumar, cuspir, é uma opção.
Tudo
posso, no optar que me fortalece
A
noite agora é quente. Aquecimento global
O
bonde não vem mais, o Uber, sim.
O
Riso?! Haha! Veio, sim.
Você
precisa assistir o Adnet, ler o Veríssimo...
A
utopia não veio
Mas
posso vê-la na política, na justiça...
Tudo
não acabou, modificou-se
Tudo
fugiu? Não! Ninguém mais foge, ninguém mais sente culpa.
Mofou?
Ah, isso sim. As leis...os políticos... o sistema...
E você
me pergunta: E agora, José.
Eu que
pergunto, e agora?
Tenho
palavras doces
E
instantes de febre quando tenho que fazer jejum
E não
dizer nada
O
Pondé me alertou do Vitimismo.
Minha
gula não é um defeito, ela sustenta meu edifício inteiro
Minha
biblioteca é meu Eco.
Meu diário
mínimo
Minha
lavra de ouro
Meu
terno de vidro
Incoerência?
Ódio?
Seja
coerente e se sentirás odiado, amigo
Você
está certo em alguma coisa, não existe porta
Pedro
tinha as chaves na mão e não abriu porra nenhuma
Quis
morrer no mar, ensinaram ele andar sobre as águas
Quanto
voltar para Minas, Minas não existe mais?!
Neves
em Minas! Aquecimento Global!
É. Putz!
E agora, José?
Do que
adianta gritar, gemer?
Tocar uma
valsa vienense,
parar
no sinal e ouvir sertanejo-universitário, ou funk?
Ai, a
gente volta para casa
E não
quer dormir, mas morrer
Funk?!?!?
Sertanejo universitário?!?!
Ouvir
isso?! É duro, José.
Sozinho
no escuro? Não.
Agora
tenho um celular.
Ele
tem luz e me conecta com o mundo
Bicho
do mato?
O que
mata são os bichos da cidade
Sua
teogonia veste as paredes de buracos
Para
vigiar a polícia.
Sem
cavalo? Não, não.
Tenho
um Rocinante branco
Que
anda devagar
E
marcha sobre as pedras no caminho
Para
onde? Para uma cidade qualquer.
sexta-feira, 30 de junho de 2017
◄ É ►
◄ É ►
Lá
onde o tempo fica só
e o
silêncio conversa com a solidão
É
Lá
onde o diálogo é um riso
e os
gestos rabiscam o coração
É
Lá
onde a pressa possui calma
e a
correria não tem condução
É
Lá
onde o medo é coragem
e a
força despenca rumo ao chão
É
Lá onde
um ‘lá’ é infinito
e um
para sempre é uma simples razão
É
Lá
onde o efêmero é uma sílaba
e o
ritmo é um corpo sem ação
É
Lá
onde dança a vida
e o
Sim deseja ser um Não
►
É ◄
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