sexta-feira, 17 de julho de 2020

CURT'aS PALAVRAS













                                


















 


                                                                                                                       

                                          

                                                     

                
 

 


 


 




 

 

 

















              
































































                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          
                                                                                                                                            














sexta-feira, 10 de abril de 2020

GATO DE RUA





Já na lanchonete, comecei lentamente a consumir minha porção de calabresa com a sensação de que, o prazer daquele momento, não se comparava a nada na vida. Quando se está com fome, mesmo que o alimento não seja uma particularidade de gosto, absorvemos ao máximo o sabor.  O dia inteiro no trabalho que se situava longe de um restaurante e distante de qualquer quiosque que pudesse oferecer um filete de salame, ataquei minha porção apressadamente, como se o alimento fosse fugir da minha fome. Com sensação de que apenas eu devorava aquele momento, deixei que caísse um pedaço da calabresa. Ao abaixar os olhos, vi que um gato magérrimo consumia com mansidão um dos petiscos que não percebi cair.
O gato interrompeu seu mastigar e, por alguns instantes, fixou os olhos em mim como que agradecido pela refeição do dia. No momento, interrompi meu paladar e trocamos silêncios de olhos. Apenas um segundo. Nosso olhar mediu tanta compreensão que também diminuí a pressa de comer. O bichano interrompeu a conversa dos nos olhos e voltou a mastigar sua janta. Calmamente. Como se em cada mordida extraísse ao máximo o sabor daquele petisco. Ele devorou um e, antes de começar o segundo, me olhou com calma nos olhos. Seu olhar firme, amarelo. Sua pelagem negra com algumas manchas amarelas e suas orelhas que de tão atentas, mais pareciam ouvir meu espírito. Esperei então ele terminar, e assim depositei outro pedaço ao seu redor. Vi sua serenidade diante do alimento e com paciência segui a ordem: comia um pedaço e lhe dava outro. Terminamos nossa porção. Lambendo com firmeza os cantos da boca, claro fazia isso sem desviar de mim aqueles olhos amarelos, deitou por cima das patas e aguardou mais um petisco. Após alguns minutos de espera ele se levantou e se foi, com cara de gente que nunca se viu, mas se aproxima porque há comida. 









Livro de contos e crônicas

Em Lançamento!






O FRUIR LITERÁRIO EM A MENINA QUE NÃO CABIA NO MUNDO

 

A nostalgia de um “mim” perdido no espaço-tempo, a peregrinar por aí “sem saber o que fazer ou onde parar”, inunda-me cada vez que viro a página desta pequena caixinha de mundos imiscíveis e a um tempo homogêneos que tenho nas mãos.

Sim.

Finalmente tenho em meu poder o tão esperado exemplar: A MENINA QUE NÃO CABIA NO MUNDO. E, como em Felicidade Clandestina, sigo adiando o prazer de devorar os contos que aqui figuram. 

As personas nesta obra se apresentam de forma tanto única quanto comum e pergunto-me: Por que me encaixo perfeitamente em cada um desses encantadores enredos?

Um universo de conhecimento despretensioso mora aqui e quando meus olhos passeiam pausadamente pelos rincões da página, sinto-me roçar a existência de Clarice ou de Cecília nesse adorável limiar entre a prosa e a poesia.

Pensamentos de um saber filosófico profundo, colhidos na tecitura dos contos, habitarão para sempre a memória “das minhas retinas”.

A saber, através destas linhas pude revisitar “meus escombros sem ao menos enviar-me um aviso” e entender, finalmente, que “as coisas que mais doeram foram as que eu sustentava achando que não ia passar; quando as deixei sem sustento, passou”.

Passou e ensinou-me que às vezes pode até nos faltar alimento ao organismo. Nunca, no entanto, ao intelecto. Devemos ter sempre à disposição “uma máquina de fazer pão” e livros. Muitos livros. Pois “livros são ótimos para proteger a cabeça”.

Confesso que em alguns momentos “meus olhos ganharam águas ao fim da leitura”. Como gotas as palavras constantemente “rasgam minhas entranhas” e vão regando meus jardins internos que por muito tempo quedaram ressequidos e desabitados. Visto que “as flores murchavam e os canteiros precisavam de uma reforma” na ânsia de encontrar num instante ímpar o maravilhoso fruir do texto!

Nill Cruz logra, em suas composições, jogar com as palavras como em tempos idos brincavam os meninos com “bola, papagaio, pião”!

Eis a obra que eu aguardava para alargar meus horizontes literários e estabelecer meu plano de fuga da realidade. Afinal, não há nada como “a paz dos livros” “para aliviar as angústias”, pois “o homem vive melhor quando imagina. A realidade é peso grande” demais.

                                  

Uma resenha de:

Jaquelini Silva Brito de Jesus Porfírio


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

QUADRADA X REDONDA



        Dois homens entraram carregando uma caixa e, com delicadeza, a colocaram no chão e ficaram observando a porta de entrada. Alguns minutos depois, mais dois personagens surgiram sorrindo pela porta, dividindo o peso de uma enorme caixa. Como formigas trabalhando, os homens amontoaram vários caixotes no pátio da escola.
        No dia seguinte, vi os mesmos homens trabalhando. Desmontava e montava, montava e desmontava. Rasgavam papelões, enrolavam papéis bolhas, parafusavam, ajustavam pernas e acoplavam as bases.Assim, aqueles grandes embrulhos foram ganhando formas e se tornando mesas e cadeiras. Após dois dias sem passar pelo pátio, voltei, e para a minha surpresa, o pátio estava enfeitado. Tomado de um azul que colocava o céu nos meus olhos. As mesas alinhadas, as cadeiras posicionadas indagando minha curiosidade. Sentei em uma delas e disfarcei de mim. Apoiei os cotovelos sobre a base de uma das mesas. Havia nelas um leve macio que instigava deitar o meu rosto, me esconder da sala de aula e evitar as matérias ruins.
        Dois dias haviam se passado desde que eu me enamorava das mesas quadradas. Via naquelas mesas um lugar para sentar com os amigos e trocar assuntos diversos. Amigos do lado... de  frente... falando das coisas mais bobas do mundo.
Numa tarde sem aulas, descansava sobre uma das mesas, quando outros entregadores entraram pela porta da escola transportando enormes embrulhos e colocaram no chão da galeria. Eram mesas redondas, da cor cinza que mais se aproximava do branco. Tomado da beleza que se expalhou pela galeria, ocupei uma das mesas e me encontrei. Até dispensei o sentido de sentar com os amigos numa mesa quadrada. É que, numa mesa redonda sentamos em círculos. Gostei do imediato pensamento de que, sentado em círculos, parecemos melhor conectados na continuidade do outro.




domingo, 15 de setembro de 2019

AUTOMATISMO AMBULATÓRIO


A coisa acontecia sempre, mas foi no final da tarde de uma quinta feira que eu enxerguei o que vi. O homem, com uma bolsa de livros a tiracolo, caminhava como quem não observa o mundo. Mergulhado naqueles momentos em que todos nós temos: caminhar no automatismo. Quem nunca saiu de algum lugar com direção ao local onde mora e sem perceber, chega? Ou quando o caminho é inverso: saímos de casa e chegamos ao trabalho? Não notamos a rua, as pessoas, ou seja, não analisamos o percurso. A ciência nomeia este feito como “Automatismo Ambulatório”.
Sentado à mesa do bar, notei logo quando o homem surgiu na esquina. Se a vida é besta, meu Deus, por que um homem caminha devagar enquanto ao redor todas as coisas voam? Qual pensamento tomava a cabeça daquele professor a ponto de não ver um cachorro que foge dele, uma senhora que parou a bicicleta para que ele passasse, e o vendedor gesticulando suas cartelas de prêmios?
No momento em que o professor olhou em minha direção, fiquei de pé, gesticulei os braços e abri um sorriso. Para meu espanto, calmo e sereno, o homem voltou o rosto para o outro lado da rua. Os colegas do bar sentiram por mim o vácuo. Com aquele sentimento de quando cumprimentamos e não somos correspondidos, andei até a calçada e chamei pelo professor. Ele continuou seu destino, sem ouvir nem ver. Olhei em volta os colegas, eles já não estavam mais ligados na minha desventura.
Meia hora depois o professor me ligou querendo saber por que não o esperei no bar, na hora combinada. A hora combinada era: sairmos do trabalho e tomar uma cerveja. E ficou espantado quando eu descrevi o vácuo. Ele sorriu e perguntou onde eu estava. Desligou dizendo: estou indo aí. Dez minutos depois apareceu com um sorriso largo e uma sacola de livros na mão. Cumprimentou a todos e no mesmo tempo em que se sentou, disse: não acredito que passei por aqui e não me vi passando.
          Entre um copo e outro gastamos a tarde. A conversa sobre samba, filmes e livros não deixou que falássemos de distração, nem do ato de sonambular pela rua. Após deixar o bar, caminhei em direção a minha casa com meus livros e planos de aulas em baixo do braço. Alguns minutos depois, já em casa, o meu celular tocou. Era a minha filha. Queria saber se eu estava bem, pois passei diante dela e não a vi.