quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A ESPERANÇA NÃO PÁRA NUMA PEDRA


No meio do poema de Drumond 
Tinha uma pedra

Mas ele não desistiu do caminho
Nem da pedra
Nem do poema
Nem de encontrar as palavras certas
Nem de ser...
Humano.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

VIDA


VIDA

No movimento da vida há um tempo circulando
Dias de chuvas e de sol
Dias que são noites, dias que são dias
As vezes temos períodos de manhãs sem alvorecer
Tardes sem brisas suaves
E noites escuras, sem luas.
Diante da dor de SER humano, nos humanizamos
Na paisagem um olhar
Nos olhos o encanto
No coração
A certeza
O SOL NASCE  E SE PÕE PARA TODOS.





sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O RELÓGIO, O TEMPO NA PAREDE. (Conto)


                 
                                                                                             Foto: Reprodução    
Faltam os móveis. A casa ficará para trás, o quintal modificará, os muros virarão paredes, mas a rua será a mesma. As árvores crescerão, os postes serão trocados. O tempo dirá. A rua quando receber o asfalto será uma avenida dentro de mim. Por ali passarão as lembranças, as saudades, a vida. Dizem que quando as pessoas crescem sentem pesares. Eu carrego uma rua dentro de mim.

O céu, cinzento todas as manhãs. À tarde o neon, inconfundível. Tudo muda. Mesmo sem buscar um novo lugar. O sol nunca dorme. Os dias aqui são claros enquanto a noite passeia em outros lugares. Aqui parece amanhecer mais tarde. Mesmo que eu não perceba, o sol peleja com o nevoeiro.
Vejo as nuvens se desenhando, obedecendo ao sol.
— Mariah, deixa esse diário um pouco. Venha ver uma coisa!
— Espere. Falta uma frase... Mas... Que coisa?
— Venha ver.
— Tá bem, tô indo.
Os minutos avançam e a minha espera se desespera.
— Olha, você tá perdendo...
— Mas que insistência! Me deixa em paz. – Mariah respondeu se ajeitando e ajuntando as pernas. O diário a roubava de mim.

A minha poltrona é a número 12. Doze também é a rua que não sai de mim. Tenho doze anos e já são 12h00min. Juntando o meu nome com o dela, doze letras. Mariah e Antony. Sou nascido aos doze de dezembro, ela, vinte e um do mesmo mês. Há um instante na vida em que tudo fica exato? Perfeito pelo menos duas vezes ao dia? Não vou terminar o meu prato com doze garfadas. Poderia até ser assim, mas no restaurante em que me encontro há mais de quinze pessoas. Nem tudo é exato. Se fosse, que graça teria?

A brincadeira de esconde-esconde, ela se esconde junto a mim. Vejo nossas sombras unidas. A lua revela nossos desejos, tímidos.
— O que você queria que eu visse?
— Não importa mais.
— Ah! Importa, sim.
— Não sei não, hein?!?!
— Não faça essa cara, eu não gosto.

O ônibus pára. Um cara com feições trogloditas ocupa a poltrona do outro lado. Ele vira para guardar a sua bolsa no bagageiro acima. Percebo que há um número 12 na sua camiseta.
— Sim, jogo vôlei.
— Mas eu não perguntei.
— Mas ia perguntar.
— Sei não, hein...
— Então por que me encarou?
— Nada...
Encolhi na poltrona.
Doze.
Caminhamos pela estrada. Ela tem um diário e canetas coloridas. Com ambas as mãos os prende na altura dos seios. Mergulho num silêncio que é só meu. Ela fala compensando a falta de palavras. A sua voz não cobre o crepitar dos seus passos dissolvendo o cascalho.
— É aquela ali? – Disse apontando um ipê florido.
— Não.
— Falta muito?
— Alguns passos.
— Tá me deixando nervosa.
— Tô não. Você é nervosa sempre.
— Uh! Tô falando da ansiedade.
— Mas também é impaciente.
— Você que é impaciente... Não espera quando me demoro aos seus pedidos.

Meu pai conversa com o troglodita, mas apenas resmunga. Escuto um “sei”, e “runrum”. Meu pai é um músico. Não fala muito. Quando está ausente fica me ligando; quando presente, fica ausente e não liga.

— Amoras!
— Eu conheço amoras. – Ela diz. Falando mais com as mãos.
— Sei que conhece, mas eu quis dizer.
— Você fala como se eu não soubesse.
— Você nunca tá pronta...
— Pronta pra quê?
— Pras coisas que eu quero lhe mostrar.
— Tá vendo, já ficou irritado.
— Olha como você tá falando...
— Tudo bem. Desculpe. – Ela se afasta alguns passos e fica a ver as colinas. Os outros foram para outras árvores. Os pássaros, nossa companhia. Percebo o vento em seus cabelos. Eles se movem como a minha certeza de que não vou conseguir ler o livro escolhido por ela.

O ônibus pára novamente. Troglodita saúda o meu pai. Doze. Percebo quando descem os seus amigos. Frente a um ginásio. Ouço a sua voz ecoando em minha cabeça. “Sim, jogo vôlei”. Precisava dizer? Não pasmem. Contei mentalmente as doze letras.

— Por que ficamos com o pé de amoras?
— Saiu no sorteio. – Falo já esperando uma ofensa.
— Não gosto de amoreiras, mas percebo que só nós temos a árvore diferente.
Não havia observado. Lancei um olhar de fazendeiro observando o gado. O meu melhor amigo ficou com um dos pés de jambo, os demais se contentaram com as mangueiras.
Para pôr fim à guerra dos sexos, uma professora quis aproximar os meninos das meninas antes que houvesse o pior. Foram selecionados os brigões, doze. Seis casais. Cada menino teria que escolher uma árvore. As meninas escolheram os meninos. – Se essa tarefa fosse dos meninos? Homem não sabe escolher com o coração, mas com os olhos, disse a psicóloga batendo as mãos nos quadris. Depois de escolhida a primeira etapa, no sorteio, as meninas escolheriam um livro romântico para os meninos e os meninos teriam que escolher um que falasse de futebol. Valendo pontos e a permanência na escola, teríamos que sentar juntos embaixo de uma árvore, trocar ideias sobre o que fora lido e fazer um relatório.

Vejo a rodoviária. Chegamos. Meu pai alcança primeiro a guitarra. A mala logo a seguir. Disse para que eu cuidasse das minhas coisas. Com doze anos já com malas para cuidar. Meu pai precisa de mim. A minha tia Carla veio nos receber no portão. Abraçou-me e, com um beijo, disse que eu já estava um hominho. Fiquei feliz pelo “hominho”. Quando entramos lancei um olhar de adaptação por toda a casa. Meu olhar me fez bem. Teria aquela magnífica casa para morar e uma linda tia que gostava de mim. O meu pai não parava em casa, compromissos da banda. A minha mãe casou-se e o meu padrasto não me aceitava. Fui morar com o meu pai, que morava em lugar nenhum.

— Obrigado, Mariah. – Disse, avaliando o livro.
— Espero que goste. – Ela é linda, pensei. Qualquer coisa que viesse dela eu ia gostar.
— Espero que você goste desse aí também.
— Sim.
Jeito descontraído, um olhar que muda um sentimento e falar de quem está ansioso. Leio Mariah assim. Ela se encosta para ler. Os cabelos cobrem o seu rosto. No momento em que desejei tantas coisas, quis ser um desenhista para traçar todos os detalhes dela lendo um livro e recostada em uma árvore. Fotografia é muito urgente, uma câmera poderia ocultar detalhes que os meus olhos queriam levemente rabiscar.

Os três primeiros dias de aulas meu pai me deixou na escola. Voltava de Van.
Antes que o relógio marcasse meio-dia, vi a minha tia conversando com a vizinha. Relutei a ir com a vizinha para o colégio. Meu pai não estava na cidade e a minha tia não podia, habilitação vencida. A relutância durou até notar que a filha da vizinha seguia comigo para o colégio.
— Você é do grupo SM? – Disse sem me encarar nos olhos.
— Sim.
— Tá explicado.
A mãe dela conferiu os nossos cintos antes de fechar o portão.

Sou um homem parado frente a um relógio na parede. Parte de mim ultrapassa o 12, mas se move como os ponteiros. Do que valem as lembranças? Acho que para esconder o futuro. Esse mesmo relógio marcava 12 horas quando aconteceu o nosso primeiro beijo. Depois de cinco anos a casa ainda é a mesma por dentro; por fora, uma pintura nova.

Mariah é comissária de bordo e chega daqui a pouco no vôo das 12 horas. Enquanto a espero, relembro os nossos dias. Eu trabalho com vendas e estou aqui com a mãe dela. Estamos felizes, amanhã será o nosso casamento. A festa acontecerá na rua doze Nº 1212, casa dela. Há um relógio preso no alto do saguão no aeroporto. Na verdade há um relógio dentro de nós contando um tempo feliz. Pelo vidro da sala eu vejo... O avião pousando como um pássaro. Vejo ao meu lado pessoas se movendo... Vejo o relógio marcando 12 horas... Vejo, alguns segundos depois, pessoas como eu desesperadas ao ouvir uma explosão na pista. As chamas propagam como as minhas lágrimas. Dissolvem o que há na aeronave. Estou frente ao relógio procurando respostas. Será que ela não está em outro vôo? Bombeiros se revezam.
Frente ao relógio. Fecho os olhos e a vejo chegar, num avião que não chegou.







quarta-feira, 10 de outubro de 2012

*************** CLARICIANDO O LISPECTADOR ***************



Acho que,   meio Clarice,
Ando meio Lispector
Dentro de um eu
Buscando um alguém
Que se Claricia
Que se Lispectoria
Que se encontra
Que se perde
Que tem nas procuras
A esperança de chegar
Como quem nunca chega
Quando busca a si mesmo.


PARA OS PROFESSORES

Eu não sei quanto tempo faz
Que eu aprendi
A escrever o meu nome
Com a sua letra

Lembro quando
Segurou a minha mão
E me ensinou a escrever
A letra "A"

Das coisas que hoje eu sei 
Sei que aprendi
Aprendi a te guardar 
No coração.

Alunos da 3ª série
         Escola
Machado de assis

domingo, 23 de setembro de 2012

LUIZA, EU GOSTO DO SEU NOME

                                                                       
Ela estava sentada na arquibancada da quadra do colégio, tinha feições de choro e, sozinha, rejeitava o mundo. Era tão pequena para um grande mundo. As dores? Maiores que o universo. Com onze anos, pensava que os adultos não tinham dores humanas, afinal, onde estão os meus pais? Ou melhor, onde estão os pais? Questionava. Questionava e questionava. As suas perguntas eram grandes como o abandono. O seu pai tinha uma nova namorada e outra casa. A sua mãe, um novo namorado e a ficção de que encontrara o príncipe encantado. As princesas e os príncipes encantados roubam das pessoas o direito de serem pessoas. 
A sua data de nascimento não era tão distante da sua idade atual, mas ela já se apaixonara. Já namorara e também já trocara de garoto três vezes. O encanto de um príncipe dura até se acostumar com o outro. Ninguém está preparado para se acostumar com alguém. A beleza perde a essência quando se acostuma e é nesse momento que precisamos ser fiéis, não ao outro, mas a nós mesmos.
Ela não gostava dos espelhos, mas gostava de maquiagem. Maquiagem sem espelhos distorce a beleza. Ela não gostava de estudar, mas sabia que para entender as respostas precisava de conhecimentos e, para isso, era necessário ler. Ler muito. Mas não queria. Estava presa nos questionários que roíam por dentro. As indagações lhe cansavam a alma, doía o corpo, mas mesmo cansada não conseguia dormir. Depressão.
Quem me escolheu para viver? O meu pai de nova namorada não se lembrava de mim. Quem me escolheu para amar? A minha mãe apaixonada me via, mas não me enxergava. Quem me escolheu para ficar comigo? A minha avó, mas não foi na paixão dela que eu nasci. Nem sei por que nasci. Sei que tenho um nome, que tenho que ir para a escola, que tenho tantas coisas... Mas tudo isso não têm sentido.
Perguntas. Ela se questionava. Queria se ajustar ao mundo. Perdeu a vontade de viver. Fazia planos. Muitos planos, mas sempre o mesmo plano. Quando morresse ninguém ia se importar. Deixaria uma carta? Para quem a carta? Não tinha amigos, não estava namorando, nem falava muito com a sua avó. Para quem uma carta? Para os professores? Eles iriam desviar seus planos.
O barulho da quadra foi se ausentando. A claridade foi amarelando até encontrar a escuridão. Tudo escurecera.
Quando ela acordou encontrou-se rodeada de pessoas. Demorou para reconhecer a sala onde estivera algumas vezes, a sala da diretora. Há dias não se alimentava direito e nem dormia. Desmaiara e foi socorrida por algumas pessoas que estavam na quadra.
Depois que todos se afastaram, a professora Sandra sentou-se ao seu lado. Acariciou-lhe os cabelos e a abraçou. Não disse palavras. Uma atitude diz mais que as palavras. A menina sentiu-se amada sabendo que a professora não era da sua genética, mas que preenchia a falta dos seus pais.
— Como é o seu nome? Sandra perguntou tendo ela no colo.
— Luiza, professora.
Sandra encheu os olhos de lágrimas e juntas choraram pela mesma dor que o tempo ajuntou ali. Tinha treze anos quando uma professora com o nome Luiza lhe salvara a vida. Depois que a salvou, permaneceu por perto, até ela encontrar uma razão para viver.

— Luiza, eu gosto muito desse nome.
 Sandra refletiu. Sentindo um passado que não passava.



sábado, 22 de setembro de 2012

ESCUTATÓRIA Rubem Alves


"como sou fã do Rubem Alves, vou dedicar nesse blog alguns dos seus textos"



Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:
"Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma".

Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.
(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.).

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.