terça-feira, 5 de novembro de 2013

FALTA

                                            FOTO DE REPRODUÇÃO
A gente cantou as canções que queria
Falou dos segredos que devia
Mas não se olhou, como se devia olhar
A gente escreveu todas as poesias.Escolheu as palavras enquanto ria. Mas não se olhou
Como se devia olhar
É que o tempo morria ligeiro
E levava de nós todo querer
De querer se querer.
É que o tempo movia de leve
Escondendo de nós todo o querer
De querer se querer.

domingo, 3 de novembro de 2013

O AMIGO ERA EU.

                                                                                           
                                                                                                              FOTO DE REPRODUÇÃO
O homem caminhava sozinho. Num banco da praça, um jornal abandonado. Naquele fim de tarde não chovera, e nem vento forte fizera. Ainda havia sol. As nuvens se ajuntavam no céu. A escuridão ameaçava chegar. Poucas eram as pessoas que ali estavam. Indagações dilaceravam o coração do homem que, no momento, tinha a mente cansada, os sentimentos machucados e os pés enfadados por caminhar sem rumo. Vendo o banco, sentou-se. Foi direto ao jornal.
“Não me atrevo mais aos versos, quero mostrar os meus reversos. Mudar, a vida concedeu. Eu perto de mim. Perto de mim como a roupa grudada, mas o amigo era eu.
Não entristeço o mundo tocando canções que me arremetem ao tempo. As minhas conclusões, descritas como um filme que agrada, desagradam. Um falso argumento, a vida concedeu. Eu comigo. Perto de mim, as pessoas sorriam, mas o amigo era eu.
Não reclamo ao coração a falta de um tempo austero, sem considerar que o NÃO é um SIM quando diz não. Dentro de mim, o que não era meu, estava comigo. Eu comigo. Pessoas me queriam, mas o amigo era eu.
Eu estava com pressa. O tempo destempava com pressa. Os diálogos dialogavam com pressa. Os olhares olhavam com pressa. A vida estava devagar, mas o devagar tinha pressa. Com pressa, me encontro ausente. Num tempo que não é meu. Eu estou sempre comigo, mas o amigo sou eu.
Vejo carros trocando pressas; sorrisos esboçando pressas; compreensões planejando pressas; incompreensões projetando pressas. Eu, com pressa, estou aqui. Como guerra que não acaba ou como música que não agrada. Estou aqui como quem deseja estar. As pessoas me olham. A gente sorri. Alegria, a vida me concedeu. Estou perto de mim, mas o amigo sou eu. 
O existir se arrasta. Segue sem rumo um discurso calvo. Busca um tempo que não é mais seu. Tão perto de mim, eu estava. Perto de mim? Sim, estou. Bons tempos a vida concedeu. Muitos comigo, mas o amigo sou eu”.
O homem não mudou de página. O jornal estava amassado. Provavelmente alguém mais o folheou e também não conseguiu mudar de página.

— Por que as pessoas não têm tempo se não criam nada? – indagou. Por uma estranha razão ele pensou na história de Narciso contada por Oscar Wilde. – Se mudassem os espelhos, a vida teria pessoas mais disponíveis, certamente. – Ponderou.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A história de NARCISO por Oscar Wilde.

                                                                      FOTO REPRODUÇÃO

Quando Narciso morreu, o lago de seu prazer transformou-se de

receptáculo de águas doces em poço de lágrimas salgadas, e as

Oréades vieram chorando pelo bosque cantar para o lago e

dar-lhe conforto.

E quando viram que o lado havia se transformado de poço de
águas doces em poço de lágrimas salgadas, soltaram as tranças
verdes de seus cabelos, choraram pelo lago e disseram:

— Não nos admiramos de que chores desta maneira por Narciso,
tão belo era nele.

— Mas Narciso era belo? - perguntou o lago.

— Quem saberia melhor do que tú? — responderam as Oréades.
— Por nós, ele sempre passava direto, mas tu ele procurava, e
deitava-se às tuas margens e fitava-te, e no espelho de tuas
águas admirava sua própria beleza.

E o lago respondeu:

— Mas eu amava Narciso porque, quando ele se deitava em
minhas margens e olhava para mim, no espelho de seus olhos
eu sempre via minha própria beleza refletida.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

SINDICÂNCIAS

Foto de reprodução
SINDICÂNCIAS

Quando o silêncio te procura
E a solidão dói em mim
Sinto o arremesso do tempo
Nas indagações.
... Talvez, o amor não acaba, mas os desejos mudam ,
E os sentimentos esmorecem...

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

NIHONJIN ROMANCE



Hideo Inabata é um japonês orgulhoso de sua nacionalidade, que chega ao Brasil na segunda década do século XX com o objetivo de enriquecer e cumprir a missão sagrada de levar recursos ao Japão, conforme orientação do imperador aos seus súditos. O árduo trabalho no campo, a difícil adaptação ao Brasil, a morte da primeira esposa e os conflitos com os filhos Haruo e Sumie são um teste para a inflexibilidade do nihonjin (japonês). O narrador, neto do protagonista e filho de Sumie, empresta voz e visão contemporânea à transformação do avô e do seu sonho de voltar rico para casa. Nihonjin, romance de estreia de Oscar Nakasato, foi o vencedor do 1º Prêmio Benvirá de Literatura, do qual participaram 1.932 concorrentes de todo o Brasil com obras inéditas.



sexta-feira, 18 de outubro de 2013

PODIA SER...

                                                                                                                  FOTO DE REPRODUÇÃO

Como explicar um “podia ser”? Já era anunciado que podia. Difícil era aceitar que seria. Mas se não fosse? Ainda assim, podia. Podia o dia alongar sem se preocupar com a minha espera. Seria difícil conviver com todos os pensamentos ansiosos que provêm de uma espera, mas podia acontecer. Podiam os pensamentos se dividir em bons ou maus. Seria difícil separá-los... Escolhê-los...
Podia, nas escolhas, acontecer um erro. Seria desagradável conviver com elas, as escolhas, por tempos que não se medem com palavras. Podia escolher conviver e, com uma boa convivência, coexistir. Seria normal a psicoadaptação. A beleza mora entre dois seres, distantes. Perto, as flores não crescem tão normais. Podia pensar no encanto. Seria normal uma atração. Podia deixar que tudo acontecesse como as estações do ano. Seria como as notas de uma melodia, uma soa após já estabelecida a outra. Podia sentir o coração batendo. Seria interessante. Podia também nem perceber. Seria distração inventada. Podia. Podia. Simplesmente podia, além do verbo poder. Seria. Seria... Seria distração esperada, além do que seria.
Como explicar um “podia ser”? Estava claro que podia ser. Podia encarar a situação como um menino. Seria apenas um menino. Podia enfrentar na condição de homem. Seria simples se mostrar adulto. Podia esperar? Seria emocionante. Podia acreditar? Seria impressionante. Podia, ser. Já era anunciado que, um dia, ela cortaria os cabelos, mudaria de lugar e, com o mesmo olhar, mudaria o jeito de me ver.   



terça-feira, 15 de outubro de 2013

O VALOR DE UM PROFESSOR


FOTO http://www.flickr.com/photos/philljackcolombia/4922834681/
O VALOR DE UM PROFESSOR.

E se pudéssemos, num dia que não fosse quinze, que não fosse do dez de um ano ou outro. A gente se pegasse pensando na primeira sala. Na primeira carteira. Na primeira letra ou nos primeiros movimentos das mãos. Se pensássemos assim, nos primeiros amiguinhos, na primeira bronca do primeiro professor. E se pudéssemos, num dia que não fosse quinze, que não fosse do dez de um ano ou outro, mas de uma semana qualquer. Num dia algum, de sol, de chuva, de frio ou de desencontros onde procuramos por nós mesmos. E se pudéssemos, num dia que não fosse quinze, que não fosse do dez de um ano qualquer. A gente se pegasse lendo um livro num jardim, lendo um jornal no metrô, lendo os painéis de uma nave no espaço, lendo o contracheque do salário, lendo as leis no congresso, criando leis no país, ou escrevendo nossos discursos. E se pudéssemos, num dia que não fosse quinze, que não fosse do dez de um ano que é sempre. Em todos os discursos, em todas as letras escolhidas, em todas as palavras escritas. Saber onde tudo começou é ultrapassar o dia que é quinze, que é do dez, de um ano qualquer. E se pudéssemos num dia que não fosse apenas quinze, que não fosse apenas do dez, mas de todos os dias. Quem sabe aprenderíamos a bravura das primeiras letras, o valor de um professor, em todos os tempos.