sexta-feira, 28 de março de 2014

QUANDO CHEGA A PRIMAVERA


                                                                                                         FOTO https://plus.google.com/u/0/photos/of/113157243989661445426
Visivelmente cansada, ela debruça a face sobre a escrivaninha e fica a ouvir as minhas mansas palavras. Os cabelos descambam pelo rosto. Com um gesto ingênuo os recoloca no lugar e seus olhos jade se esforçam em mim. As largas vidraças denunciando rostos indiscretos não impedem as minhas indagações. Como os olhares nas janelas, busco também entender a cena. Somos a cena. Olhados de fora. O silêncio alterna entre um dizer e outro. Quero saber como foi o seu dia. Abordar a espera é uma forma de dar vazão à conversa. Observo suas mãos pequenas, afetuosas. Ela estica o seu casaco até a cabeça e como um cobertor se esconde nele. Não totalmente, pois ainda me resta um filamento do seu rosto. Mergulho no sorriso que escapa. Trafego nas linhas da sua boca quando o riso se desmancha. Desenho seu rosto e a beleza que encontro me leva a desdizer quem sou. A primavera antecipada nas minhas desprevenidas horas rompe a espera. Não estamos mais sós. Nem tempo há para mais dizeres. Ao nosso redor as pessoas sorriem. Tomado de encanto, preso à delicadeza de uma mulher adormecida, me deixo ser. Quero tomá-la nos braços, repartir o sono e dispersar a espera. Intento agradá-la com palavras, mas a minha contemplação não consente. Dizem que a beleza esconde do homem a fala, paralisa-o, emudece o ser. O seu rosto angelical invade a minha morfologia e todas as ortografias desaparecem dos meus vocábulos. Seus olhos se acendem. Não quero ir, não posso ficar. No subjetivo jogo do sim e o não, atento à imagem com rabiscos de primaveras. Millah. Ela ilustra essa palavra no seu caderno, eu grafo o seu nome em minhas páginas.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O MELHOR “MELHOR”


Quanto a mim, não quero mais voltar nas saudades, acho que você pensou nisso. O tempo nos força a andar, não importa como devem ser os passos. Somos confeccionados de ontens e tingidos de agoras, mas antes que venha o depois, os momentos inesquecíveis abrem espaços. Para o amanhã se move a vida e para o antes o viver. De que valem as lembranças se não podemos reconstruir as estações? Você se lembra como acontecem as estações? Elas nascem do brilho do primeiro encontro, antecipando a poesia que demora nas saudades. As reminiscências têm valor de saudades, mas não se comparam às lembranças. Voltar ao lugar de antes é do homem, lá está o melhor Melhor. Humanos vivem bem em locais imaginados, mas nós não estamos imaginando, noto que você observa isso. A saudade é um olhar que demora por dentro, pois lhe falta ainda o complemento do que foi digno. E o que foi digno? Só o coração sabe contar, pois são dele as dores e as alegrias. As lembranças moram nesses dois sentimentos. Sei que você sabe disso, pois não se lembra mais dos momentos que não lhe provocaram estranheza... Penso que você cogitou isso, mas não delongou nesse pensar, pois queria voltar nas saudades e num gesto de refrigério quis parar o tempo, adiar o futuro e se deleitar no que passou. Amanhã, se os caminhos se conectarem, quem sabe a gente possa sentar e falar das estações, do olhar que demora por dentro e de saudades. Sei que você pensou nisso e quer seguir o coração.



segunda-feira, 24 de março de 2014

A BELEZA ESTÁ DENTRO DE VOCÊ

BASTA MOVER OS OLHOS
PARA QUE A BELEZA SE INSTALE
NO CORAÇÃO.


BASTA DEMORAR OS OLHOS
PARA QUE A BELEZA
SE INSTALE NO CORAÇÃO

domingo, 23 de março de 2014

O SEQUESTRO DA MÚSICA

Pela manhã, quando o corpo se levanta, mas o espírito ainda permanece madorno, é que se ouve música boa; antes de começar a entender o que os ouvidos entregam ao cérebro. Antes de qualquer coisa: vindo dos gestos dos vizinhos, dos sons que vêm das ruas; antes de ligar a TV e ver a premiação do melhor cantor, ou cantora do ano. Ainda bem que não se premiam os melhores compositores. Ninguém mais tem tempo. Para quê gastar tempo com arranjos se com duas notas (notas e não acordes) e uma onomatopeia faço do meu hit o melhor do ano?  Para quê gastar tempo escolhendo palavras se, com os vocalizes, sou intelectual num programa de TV?  Eu quero estar na universidade, ser universitário, mas não quero ferir o meu sertanejo, no qual “Ando devagar porque já tive pressa e... chorei demais”. Enquanto fazem músicas com duas notas, eu penso nos dois acordes do Geraldo Vandré, que, “caminhando e cantando, seguia a canção”. Enquanto canções agitam o corpo, a cabeça pede um pouco mais de calma; “é preciso ter paciência”, afirmou Lenine. Dói saber que algumas pessoas não sabem conviver com a liberdade. Essas aproveitam os quarenta e três segundos de um sinal de trânsito para fazer sofrer a música que já quase morre em mim. Pela manhã é que se ouve música boa. Ouço os pássaros visitando o meu aconchego, mas o tempo passa e então, na minha rua, um hit com duas notas acelera a morte da música, que já quase morre em mim.

quarta-feira, 19 de março de 2014

ADÉLIA PRADO, UMA AULA DE ARTE



O que a memória ama, fica eterno.
Te amo com a memória, imperecível.


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A PEDRA DO MEU DRUMMOND


Quando eu nasci,
Para a Poesia fui levado
Andei léguas de tempo
De tempos em mim
Desachados.
Escrafuchei o pensamento
Psicologiei meus sentimentos
Escrachados.
No meio do caminho,
O meu Drummond foi lembrado,
No difícil catar de palavras
Para o meu poema
Inédito.

domingo, 16 de março de 2014

DESCAMINHOS

                                                                                                                   
                                                                                                                   Foto de Reprodução
Há momentos
Em que as palavras
Se escondem
Pra dar lugar

Ao verbo sentir.