terça-feira, 11 de novembro de 2014

O SENSÍVEL


               
Ele era sensível, tinha que ser avisado, de uma vez ou aos poucos. Passou muito tempo vendo seus direitos e inventando alguns. Não falava muito, não sorria muito, não se importava muito, nem se deixava influenciar. Às vezes gastava horas pensando em como fugir de uma conversa tola. Sabia que tolos existem em todos os lugares, até mesmo onde residem os doutores. Era capaz de distinguir uma nota no som de uma buzina escapando na rua. Reconhecia de longe quando alguém pretendia gastar seu tempo com conversas à vista. Conversa fiada nem chegava até ele. Aliás, ele quis saber quem inventou a conversa fiada e teve que pagar adiantado para aprender com os livros. Mas o Jonas ele ouvia. E não era porque o rapaz se parecia com ele, mas porque o aceitava sem se preocupar com a sua diferença. Jonas sabia o tempo certo de passar pelo sinal antes que zerassem os números. Colocava o garfo do lado esquerdo, a faca do lado direito e o prato no meio. Quatro dedos afastados dos talheres. Mas o Jonas raramente almoçava em sua casa.
Ele era sensível e tinha quer ser notificado. Tinha como um dos hábitos ler palavras ao contrário. Alguém o avisou que faltava um ponto final em suas “reticências”. Um infarto o levou quando soube disso. Ele era sensível. Não sabia brincar com as reticências...


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

GENTE ESTRANHA


           Acendeu a luz. A janela era como um quadro escuro, tamanha a escuridão do lado de fora. A cabeça girando ainda pelas conversas que ouvira a respeito de si mesmo uma hora antes. Minuciosamente repassou em sua memória tudo que lhe fora falado. E se ele fosse o que as pessoas falavam? Guardou-se em si mesmo e foi olhar o espelho. Estava ficando calvo. Adquirira olheiras e o rosto estava com a pele ressecada. As orelhas cresceram algumas medidas e sua mente já não recebia novidades há algum tempo. E por falar no tempo, ele percebeu, também já não tinha mais tempo. Voltou subitamente o rosto para a janela, viu a escuridão e nela o temor de estar sendo observado. Caminhou como quem tem medo até a vidraça e fechou-a de uma fechada só. Cerrou as cortinas e com a impressão de que alguém o vigiava voltou para o espelho. Estava com o olhar vermelho, mas não havia chorado. Na festa, disseram que ele estava sofrendo por amor e que, preocupado, andava perdendo os cabelos. Falaram ainda que, por andar ansioso, respirava ofegante e isso lhe trouxera uma cor de sol no nariz. Sempre tivera o nariz avermelhado, mas a maioria só enxerga o imediato e não vêem que o depois tem um antes. Caminhou pelo quarto, tinha quase razão, estava sendo observado. Sentiu a pele arrepiando e um frio de pavor lhe percorrendo a espinha, mas controlou-se, não era de ter medo. Apanhou uma pequena tesoura e foi até a porta do quarto. Caminhou levemente, com o objeto em punho, evitando o mínimo possível de ruídos. Abriu delicadamente a porta. Como alguém que invade uma casa. Mas não saiu. Apenas esticou o pescoço e observou o corredor. Não havia ninguém. Fechou a porta empurrando com o pé e depois com a bunda. Voltou para o espelho. Com um pente fino apoiando aparou os supercílios. Apanhou duas fatias de gaze, dobrou-as, e com um prendedor especial prendeu-as nas ventas. Queria um nariz afinado, ninguém mais iria debochar do seu nariz batatudo. Aplicou um pouco de creme no rosto, queria ter cor de gente, pele de gente e... aspecto de gente. Com o rosto cheio de creme, caminhou até a porta. Não teve mais dúvida. Estava sendo observado. Caminhou na ponta dos pés até a janela, abriu-a de uma abrida só. A escuridão lhe invadiu os olhos. Não tinha ninguém. A gente fica estranho quando se olha demais no espelho e quando acredita cegamente nas pessoas. Ele estava sendo observado. Havia alguém frente ao espelho.



                                                                                           

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

LANÇAMENTO DO LIVRO DIA 28/11/14



PARA LER ENQUANTO ESPERA, um livro de crônicas e contos. Com textos curtos, reflexivos e de fácil leitura, o livro apresenta diversidade de assuntos, talvez despercebido do nosso cotidiano. Em textos como, "Quem espera sempre alcança” e “Por que temos um nome?", o autor traz uma dose de humor que contribui com a heterogeneidade dos temas abordados no livro. O conto “18 anos”, um suspense baseado em fatos reais, e o conto romântico e de ficção "O rio que passava entre nós", oferecem aos leitores o prazer da leitura e a reflexão. No valor que Adélia Prado afirma que: "Todo texto precisa apresentar poesia, pois poesia é o que enfeita a literatura", os textos aqui apresentados foram escritos com sentimento e fala de poeta. Cabe ao leitor, mergulhar nestas páginas e, enquanto espera por algo em algum lugar, que possa desfrutar de uma ótima leitura.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PRO AMOR EU PEÇO SABEDORIA


PRO AMOR EU PEÇO SABEDORIA



Pro amor eu peço sabedoria
Pra entender o coração
E um pouco mais de calma
Pra jogar com a razão

Pro amor eu peço sabedoria
Pra educar minha emoção
E ensinar esse menino
Tão cansado de ilusão

Quando eu perco a coragem de dizer
Eu me esbarro em qualquer verso de canções
Vou no tempo navegando sem saber
O pouco a pouco do amor no coração.    
♫    


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

POESIA E AMIGOS - MUNDO ADOLESCENTE



MUNDO ADOLESCENTE


Conversas informais
Gírias
São ditas a toda hora
Confundindo o mundo adulto

Os códigos
Tiragem, confusão
Eles não entendem
Mais nada

Carinhas querem dizer palavras
Números representam letras
E assim conseguimos
Contar histórias
Sem que os adultos saibam.
♫ 
Hadriely Moreira Diniz 8ºA
E.M.E.F Angelo Mariano Donadon
Projeto trabalhando com poesia
Sala de atendimento Educacional especializado

sábado, 4 de outubro de 2014

MÁQUINA DE FAZER PÃO


            Observei o Sr. Arlindo conversando com a minha avó. Ele deixou uma caixa em cima da mesa e avisou, pode instalar e usar quando quiser. Minha avó abriu um sorriso ainda maior ao que estava estampado no rosto. Minha curiosidade descambou por minha alma, o que seria? Perguntei e, algumas vezes, ela apenas sorriu.
            Fui morar com a minha avó quando ainda tinha sete anos. Meu pai não sei quem é, a minha mãe anda por aí sem se lembrar de nós. 

          Quando as coisas se agravavam, e isso acontecia repetidas vezes, o Sr. Camilo nos bancava emprestando algum dinheiro para comprar comida e também para pagar os meus livros. Quando eu buscava algum trabalho, minha avó dizia que era para terminar os estudos e que menino deve estudar para ser alguém na vida. 
       A escassez em casa não me privava de ser alguém.  Faltavam a nós dinheiro, roupa e comida, mas não nos faltavam coragem de cantar e sorrir. Às vezes sorríamos de coisas bobas. Sivuca, o nosso gato, adorava correr atrás das baratas e isso nos desviava da aflição.
            Naquela tarde a minha avó recebeu a sua encomenda. Durante um ano ela economizou da sua aposentadoria alguns trocados para realizar o seu sonho. As vizinhas já tinham uma máquina de fazer pão, faltava uma para a minha avó. 
          Penso que todas as donas de casa daquela região tinham um utensílio daquele. O Sr. Arlindo instalou a máquina na cozinha, e no meu coração, instalou a esperança. Não tínhamos muito que comer, mas tínhamos uma máquina de fazer pão.





terça-feira, 30 de setembro de 2014

PENSEI SER VOCÊ - POEMA

VÔOS DV

 PENSEI SER VOCÊ



As costas nua

Sobre os ombros,

Espalhado os cabelos

A menina tem a lua

E as estrelas como espelho

O corpo moreno

De sereno rabiscado

A noite como amiga

E o poeta encantado

Desenha com palavras

A tua meiguice.