sábado, 9 de maio de 2015

ESPERAS NÃO VINDAS


Horas esquecidas. Um tanto de momentos rasgou o céu das esperas. As poucas pessoas que ali estavam, despercebiam de mim. Acho que nem eu me via.  No momento cotejava o tamanho dos meus pensamentos.  Nas prateleiras da biblioteca, assuntos paginados que poderiam descontar o vazio, preencher momentos e me colocar no mundo real ou na fantasia da realidade. A manhã era de sol que nasce sem amanhecer e o meu aguardar tinha cor de dia não amanhecido. Livros. Meus olhos conversavam com eles, à distância, sem precisar gritos ou voz de chamada. Como os meus anseios, os livros eram muitos, mas não eram barulhosos como a minha vontade. Os livros eram diversos para minha cabeça de espera única.
Na sala, ao redor de uma mesa redonda, duas vidas quietudiavam: um homem e um livro. Ambos esperavam serem tocados. Para o livro, bastava um estender de mão; para o homem era preciso: um abrir de porta, um levantar de rosto, um olhar de procuras, um pouco de caminhar e, um sorriso de chegada se misturando a um abraço. Já algum tempo, gastava ali os meus dias e sobre os meus dias, as manhãs tardeavam.


sábado, 2 de maio de 2015

SOBRE'VIVER



            Vi. Ver é uma questão do viver. Vi e notei, nos meus olhos, incredulidade. Uma palavra, duas ações e um ato: viver. Vi e Ver são monossílabos, mas, viver é mais que dois sons e muito mais que dois atos. Dois verbos que se ajuntam para dar movimentos à existência. Vi e Ver no imperativo têm sons urgentes: vê-ja. Ver o que Vi é viver no aprendizado de que, apesar das coisas que Vi, preciso Ver o que acontece ao meu redor. Ontem eu Vi coisas que os meus olhos não anseiam mais Ver, mas também Vi casos que dão gosto de Ver.  Hoje eu vi fatos. E ver fatos como esses é uma desconstrução. É como se o momento perdesse a chance de apreciar o instante. O instante que não é já é passado. No Viver sofre-se porque viu, e entedia-se porque vê. Há inconstância no interstício, deslocação humana. Viver é um arrastar de alma, um descompreender do instante, um descambar do espírito, um estar que não está. Tudo é, mas também não é. É no “quando está” que se enxerga de verdade. Vi. Ver é recorte meu. Projeto-me, figuro-me, confecciono-me, me visto das verdades que são minhas, sem Wildiar. No ver está o tudo: a beleza e a feiura. A cor, o tempo, o tamanho, a extensão, a dimensão. O viver alegra-se no que viu e também no que vê. Vi e ver. O passado esbarra no presente, mas é instante. E ninguém é instante sem misturar as estações. A emoção captada ajunta os verbos Vi e Ver para sobreviver no tempo que não espera viver. Vi. Ver foi por acaso. Não estava ali por buscas de olhos, mas por automatismo. Vi. Ver esse tipo de acontecimento é fato deslegal. Meu mundo munda por coisas simples. Se perder no simples é sofistificação, no sofisticado é humildade. Temos os olhos abertos, sentimos o mal dos homens absolvidos pelos olhos da luxúria. A necessidade brota do que vi, do que vejo e o que vou ver. As possibilidades ameaçam o viver. Quem tem olhos fechados quer apenas ver. Sobre’viver. Eu estava ali. Registrando com meus registros castanhos: uma câmera e um espelho, entre os objetos, um homem. Parecia tão pouco o mundo, tão pouco o espelho, tão pouco a câmera, tão pouco o homem. Vi. Ver que uma selfie é a essência de ser visto, não cabe no viver do homem que sobrevive inventando verbos. 

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segunda-feira, 27 de abril de 2015

REFLEXÃO SOBRE O SIM E O NÃO  



Tenho a impressão que a gente acorda Sim, se levanta Não e se desperta na possibilidade da Escolha. Que durante o dia, a gente é todo Sim, é todo Não e entre esses dois símbolos, a Escolha. Na verdade, não somos apenas água, carne e osso, somos Escolha.
Guardo essa inquietação, que o Sim é fulgente, o Não é claro e a Escolha, um árbitro. Que a alma existe, o espírito vive e o corpo é Escolha. Isso se resume em segundos, em cada movimento. A gente demora no Sim, demora no Não e se a escolha demora, vira um Talvez. Durante o dia a gente diz não para o Sim, alguns segundos depois, diz não para o Não. O Talvez fica a decidir quando é sim para Sim e quando é não para o Não: talvez sim, talvez não.
A Escolha, quando escolhe, às vezes recebe um não do Não ou um sim do Sim, mas toda decisão, mesmo sendo um não, é um sim.  Concordar já é um Sim, mesmo que por dentro o Não grita não.
Sinto por dentro que o Sim quer ser o Não e que o Não deseja ser o Sim. Nós, que vivemos de espelhos, queremos ser quem imaginamos. Imagine a dor de um Sim dizendo sim para a morte de quem faz o bem, imagine a dor de um Não dizendo não para a morte de quem só faz maldades. Ah! Mas eles também decidem juntos: imagine a luta do Sim e do Não tentando impedir que a Escolha deixe um indivíduo Assistir o BBB, ouvir alguns funks ou gastar tempo com televisão?
Tenho mesmo a impressão de que, entre o Sim e o Não, a Escolha é uma intermitência, e que esses gêmeos são palavras sábias quando a vida nos cobra a sabedoria.


terça-feira, 21 de abril de 2015

SEM INTERROGAÇÕES


 
Por que Nasci. Por que Esses são os meus pais. Por que Esse é o meu país, aqui é a minha cidade e essa casa é a minha casa. Por que Cresci lentamente e lentamente quis ser logo adulto. Por que Cresci e o crescimento me doeu tanto, tanto que agora quero voltar a ser menino. Por que Passei pelo que passei...
Por que A noite chegou. Por que Adormeci. Por que Acordei e por alguns minutos fiquei sentado na cama até me despertar. Por que Lavei o rosto antes de tomar o café e logo depois voltei ao banheiro para escovar a boca e tirar o restinho de bolacha grudada nos dentes. Por que Tenho de colocar uniformes, andar de carro por alguns minutos, chegar à escola e perceber-me: igual aos demais.
Por que O despertador tem o som de uma canção.  Por que Mesmo que amanheceu. Por que O sol atinge o meu rosto rompendo a fresta de uma janela com vidro fumê. Por que Deixo que a luz me acaricie o rosto, percebo a brisa e levanto feliz.
Por que Ajeito a gravata diante do espelho, observando em meu rosto os muitos agoras que o tempo plantou. Por que Estou no trabalho, mas observando as pessoas que passam no corredor. Por que Chego sem pensar a cozinha, apanho a garrafa de café e retiro dela a última gota. Por que Tomo café e ouço assunto sem interesse. Por que Aceito ouvir, aceito a falta de café, aceito tomar o chá, sem interrogações.
                                     Obs: Esse texto foi escrito para que se fizesse três tipos de leitura: 1º com o por que                                                           de perguntas; 2º com o porque de respostas, 3º leia sem os porques                                      
 

domingo, 19 de abril de 2015

REFLEXÃO SOBRE O SILÊNCIO




Talvez seja silêncio o que vou dizer, não sei descrever gestos. Ele conversa sem parar. Ouço ruídos, sons onomatopeicos. Para conversar é preciso fixar vista, para entendê-lo é preciso muitas horas de estudos. Eu não tenho essas horas. Observo, ele, com um notebook na mão, digita numa velocidade impossível. Adapto-me à humilhação. No teclado, meus dedos têm a velocidade das leis do meu país. Ele abre um chat e conversa como gente “normal”, fazendo gestos e sons. No momento observo uma colega com o telefone no ouvido apontando a direção de uma casa comercial. Ela também usa sons onomatopeicos e interjeições na fala. Semelhante, sou silêncio, observação. A colega desliga o telefone e conversa com ele. A conversa não me interessa. Sou acostumado aos sons. Volto a ele. Sinto outra vez a humilhação: ele digita num celular, fala para a câmera no notebook, separa seu material de trabalho, eu, me perco numa coisa só e preciso repetir várias vezes a leitura do meu texto. Outras pessoas invadem a sala, conversam com ele. Os sons são poucos. Eu o conheço de outros tempos, já estivemos ligados num mesmo gosto. Agora somos parte de uma equipe. As pessoas conversam com ele, é preciso que ele fale, não pode haver invasão de fala. A conversa só acontece se houver olhos nos gestos. Quando ele fala as pessoas observam, quando as pessoas falam ele fixa o olhar. Assim, com atenção. No momento amarroto-me pensando no vazio da pressa dos nossos dias. Prestaríamos melhor atenção se fôssemos surdo/mudos.

 

terça-feira, 7 de abril de 2015

REFLEXÃO SOBRE O TALVEZ




               Tem palavra que toma a gente por inteiro, por um instante ou por alguns dias. Quem nunca esbarrou num Talvez? Mesmo que, Talvez, fosse um esbarro ou que o esbarro fosse um Talvez? O fato é que essa palavra Tal, é Vez em todos os tempos, em muitos mortais.
               O Talvez é um ir que não garante a certeza ou um ficar que não se instala, mas que promete uma possibilidade. O Talvez possui doçura no som! Mesmo quando machuca ouvi-lo, há no Talvez um grafo de esperança. Um Quem Sabe eu vou ou um Porventura eu fico, fica mais suave com um Talvez. 
               No reino dos advérbios o sufixo não mente, mas “mente” acompanha alguns e suposta ‘a’ mente um possivelmente, mente. 
Aparentemente um Por Certo pode induzir a uma certeza, mas se Acaso isso não acontecer, será melhor um Talvez. Eu não tenho dúvidas, tenho o Talvez. Quando o amor pronuncia um Talvez, o verbo esperar se enche de riso. Se a chegada não acontece a felicidade fica por conta do que foi imaginado. Se consumar o encontro, a alegria transborda.
               O Talvez é ambíguo, navega em tempos distintos. 
               Ouvir um Quem Sabe arranha mais do que um Talvez. Não se lê um Talvezmente, o que não seria uma inverdade, o Talvez mente. Ele se esconde nas possibilidades e amolda-se, aparentemente, no seu próprio Talvez...


sábado, 28 de março de 2015

ENSAIO SOBRE O NADA



       ... Uma dimensão impercebível. Princípio de todas as coisas. O fenômeno se cria, rompe, toca o inesperado. O sim e o não, o tudo e o Nada. Na ausência, no vazio, no som do silêncio de tudo o que existe. Em tudo o que existe há o Nada. Tudo tem a sua maneira de existir e existir é isso, saber da essência de ser nada.

O Nada é um princípio, um ajuntado de minúcias, um escolher sem sentir, um acordar sem despertar, um pensar sem refletir.

São necessários um pouco de ‘cada mínimo’ para chegar ao tudo. Olhar o céu e sentir ausência de nuvens e ver todo o seu azul tomando conta da gente. O azul é o tudo, mas também é o Nada.

Ouvir uma canção, sentir carência de silêncio. O vazio em cada espaço do tempo em ritmo, como no acontecer da vida. A canção quando invade é tudo, mas há nela uma essência do Nada.

Uma tela em branco, o branco é o Nada, mas é o tudo de um início. Após um ponto, um rabisco ou um deslizar de pincel, o tudo se faz, brota a imagem, revelando a existência da contemplação. E contemplar também pode ser isso: o transbordar do Nada.

E a palavra quando chega? Um poema se faz e a poesia acontece. Depois foge da gente. Largando sentimentos que surgem dos de repentes Nadas.

O mesmo corpo que sente o tudo também se esbalda ao Nada. Estamos cheios de tudo, abarrotados do Nada. Somos sim e não, tudo e Nada. E o instante que tudo revela, revela também isso: ser instante é ser a luz que o Nada acende. O Nada criou o tudo. Um é afirmação do outro. O tempo é a confirmação deles e o viver uma desinência.

Quero descrever o Nada, o tudo já me aborrece. E se em Clarice o Tudo começou com um sim, houve também a participação do Nada. E se a terra era sem forma e vazia, havia nela o Tudo da beleza do Nada. E se sei que nada sei, sei da profundeza do Nada. Apesar de querer saber tudo o que o Nada faz.