sábado, 31 de agosto de 2019

UMA IDEIA VINDA DOS PÉS

                                                                                 



        Faltavam alguns minutos para o Avião pousar e a sala de espera foi se aglomerando. Preciso dizer que, por ter uma estatura com pouca dimensão vertical, não fiz como os outros: observar a pista pelo vidro à espera da descida da aeronave. Como sabia que o meu amigo passaria pelo portão de desembarque e viria até mim, sentei-me. Um baixinho sentado onde a maioria está de pé, se limita ao movimento “Cara-Crachá” ou, enfiar a cara no celular e ficar ali “hibernando”.

        Num desses momentos em que desviamos os olhos do Iphone para que o cérebro respire outras novidades, notei algo incomum, para não dizer exótico: um casal de pés. Membros inferiores masculinos, contrariando a lógica da beleza dos membros inferiores femininos. Os pés masculinos tinham nos dedões enormes pelos negros, com unhas que iam além da carne. Chinelos amarelos em pés demasiados brancos destacavam ainda mais aqueles fios mal-ajambrados, incentivando-me a pensar que, a natureza, fez brotar naqueles dedões a cabeleira do Chico Cesar. As unhas apresentavam uma cor escura, curvada, semelhante à lua minguante, era como se armazenasse por baixo algum tipo de fertilizante.

Não precisei de imediato levantar a cabeça para observar os rostos pertencentes aqueles membros. Atentei-me aos contrastes. Um pouquinho para a direita, leveza, candura, poesia. Um movimento à esquerda, crueza, rusticidade, descuido. Um desprimor.  Os pés rosados da moça beiravam a perfeição. Cabiam delicadamente nas rasteirinhas. As unhas decoradas despertavam a candura de dedos que, de tão perfeitos, deveriam ser proibidos de pisarem no chão.

        Bem próximo a mim, o casal dono dos pés, beijavam-se e abraçavam-se constantemente como se faz no início das relações conjugais. O homem tinha boa feição e era do tipo que frequentava academia.  Pergunto-me se nas redes sociais, ao invés dos rostos, postássemos a foto dos pés. Quem se interessaria? As partes do corpo são capazes de provocarem uma atração, mas nunca ouvi dizer que alguém já se apaixonou por uma unha, por dedões com pelos armados necessitando uma boa escovada, ou por calcanhares semelhantes à terra seca no sertão nordestino.  O fato levou-me a conferir outros pés ao redor. Os que usavam sapatos escondiam suas anormalidades? Curvas delineadas? Fica aqui um mistério.

Com outros pés femininos comparei os membros da jovem. Não havia ali pés tão formosos. Diante dos pés impolidos e grotescos do moço, chegava a ser cruel com os olhos a beleza dos pés da moça. Quando o avião pousou, o casal aproximou-se do portão de desembarque. Observei seus rostos. A moça tinha feições horrenda e o rapaz um rosto-de-revista. Penso que no primeiro encontro, o encanto dela se deu do tórax para o rosto do rapaz. Ele, enfeitiçado com os magníficos quadris, apaixonou-se pelos pés da moça.         


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terça-feira, 9 de julho de 2019

INTELECTUAL PILHADO




Estudar, ser curioso, amar o conhecimento e questionar o que aprendemos têm suas vantagens: não somos massa de manobras, e podemos ser bem remunerados por isso. Mas o lado douto também apresenta desvantagens. Um intelectual um dia se casa, gera filhos e aprende que, expandir-se no conhecimento, exige sabedoria para fazer parte do mundo dos filhos, companheirizar a esposa, sentar com os amigos e se “parecer” com eles. Antes que algum deles comece a dizer: Aí, vem chegando o doutor! Agora tá metido. Não bebe mais com os amigos! Ou quando surge aquele assunto que você passou quatro anos na faculdade estudando e que o amigo do amigo por trás de um copo, (e que sabe a marca da cerveja porque o barman falou), resolve debater. Pois é. Sabemos que insistir no assunto num momento como esse é perda de tempo. Até porque não se muda opiniões ou conceitos de forma radical. 

Diferente do que acontece nas igrejas, demora-se algum tempo para instalar novos princípios no ser humano. Ainda que um pensamento possa nos tomar num segundo, custará um tempo para que se torne uma ideologia. Sei que o leitor dirá: o meu mito consegue. De cá eu não discuto a qualidade dos mitos. Não perco meu silêncio com o barulho dos outros. E um pensamento crítico demanda de muitas leituras para as mudanças de conceitos.

Voltando ao prazer e as desvantagens intelectuais, agora diante dos filhos: uma menina de treze anos que numa sexta-feira à noite, me faz sentar e acompanhá-la num episódio do seriado “Para todos os garotos que amei”. Sendo que, antes, pediu-me para escutá-la e reparar suas entonações enquanto fazia a leitura de um trecho do livro “O mundo de Sofia”. Antes do filme, já no meu colo, pede-me se eu posso doar um dos meus livros de Dostoiévski para a biblioteca da sua escola, porque as suas amigas querem emprestado quando ela terminar.

O sábado é dia de acompanhá-lo no jogo decisivo do seu time. Meu filho, com onze anos, duas vezes por semana treina basquete e pretende ser profissional. No caminho para o ginásio ele me mostra sua coleção de MCs. Antes que eu diga algum protesto ele liga o celular e já dispara uma daquelas repetitivas. No instante em que a frase se repete na sexta vez, ele abre uma janela no celular e mostra: MC Kalladão, MC Kalladin, MC S#Konteuddo e MC Cachorrão. Não foi possível ver os nomes de todos MCs porque já estávamos no pátio do ginásio e ele desligou suas preferências musicais.


No sábado à noite a TV anunciou exibir um ótimo filme. Animei assistir já que os filhos foram dormir na avó. Minha esposa, em poder do controle da televisão disse, “Já que o filme é bem tarde, assista comigo meus programas preferidos, depois eu vejo o filme com você”. E assim exerci meu companheirismo diante de Master-Chefe, novela e fábrica de casamento. Quando o “Gênio Indomável” começou, meu sono acordou. Ela dormiu. Como se todos os sonos acumulados durante anos fossem designados para aquele instante.

LL!N
zurC 

domingo, 7 de abril de 2019

NINGUÉM MANDA EM MIM



A menina nem esperou que o homem, suponho ser o seu pai, terminasse a fala e já disparou: ninguém manda em mim. O homem encarou a mulher, imagino ser a mãe, e bufou, ora seguindo a menina com os olhos, ora olhando o prato dela por terminar. Gesticulou um “o que eu fiz” para a mãe que se limitou em levantar os ombros e espalmar as mãos. A menina caminhou por entre as mesas do restaurante com o celular na mão indo de encontro a uma tomada. Achando, sentou e mergulhou no aparelho. A frase dela ecoou em minha cabeça como aquelas músicas chatas de um refrão único que o cara do lado coloca no seu celular e o som repete tanto que, mesmo a cabeça recusando, a mente canta. Nesse caso, não mandamos na mente. O senhor (imagino), pai da menina, aparentava ter cinquenta anos e o domínio das suas experiências. Atendia o celular em intervalos relativos de três em três minutos, e num desses atendimentos, pude ouvir: calma! Segura, aí! Já estou indo. Desligou a chamada, anotou alguma coisa no aparelho, olhou firme para a mulher em sua frente e disse: o chefe mandou que eu pegue o carro dele na garagem. A mulher estreitou os olhos no homem: você insistiu que eu viesse e ordenou trazer a Júlia, depois pergunta ainda: o que eu fiz? O casal fez menção de sair e a menina os seguiu sem desgrudar os olhos do celular. Com a sensação de que ninguém manda em mim, retirei meu cartão e paguei o almoço. Voltei a redação do jornal e logo escutei o diretor cobrando. Só faltava o meu texto para fechar a edição.



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

NA QUITANDA COM GULLAR


Foi por acaso que me deparei com Gullar na livraria. Saí de lá e entrei em sua Quitanda. Tive a sensação que estava visitando novamente o MASP em São Paulo. Havia saído com a intenção de procurar por mim nas ruas, já que eu não me encontrava dentro de casa. Escapei. Sem rumo, peregrinei sem saber o que fazer ou onde parar. À minha frente, mas para a direita, uma padaria, com promoções e cafés variados.
Poderia sentar ali, me esparramar sobre a cadeira e esperar por mim, passando por uma das vias em ida e, ou volta, ou simplesmente pedalando em círculos com uma bicicleta infantil. Poderia puxar conversa com Manoel Bandeira que por muito tempo frequentou lugar como aquele e até pensei convidar o Chico para passar com sua Banda. Mas o que fiz foi virar para a esquerda e, atraído por gritos de “Vai, Curíntia!” , mirei o bar abarrotado de gente que se dividia entre cerveja e a copa São Paulo de futebol Júnior. Ali eu não estava. Nem estaria se me deixassem sentar para um papo com Gullar.
Vilhena possui alguns lugares onde eu consigo esconder de mim. Não vou revelar esse recinto para que, você que me conhece, não venha delatar o meu cantinho preferido. Distante do celular, afugentado das redes sociais, e vazio dos amigos virtuais, coube a mim se esconder do músico que, indisposto com a música, posa de cinéfilo na Flix.
O fato, isso é fato mesmo, é que caminhei por um bom tempo pelas ruas, buscando encontrar um lugar que me devolvesse para mim. Vanzolini em sua Ronda tinha a noite, eu, uma simples tarde cinzenta com cara de chuva que traz o frio. Como disse antes, sai pelas ruas sem saber onde ir, mas fui salvo pelo automatismo que me levou a uma livraria e me devolveu para mim. No meio de tantos livros sorrindo, abri um riso daqueles que espanta Cem anos de Solidão, escolhi um Gullar, andei com ele até um bar vazio, e numa mesa discreta, me fiz existir na Alquimia da sua Quitanda.


sábado, 6 de outubro de 2018

EU TENHO DISTÂNCIAS








Eu tenho distâncias. Distâncias curtas, distâncias longas e distâncias invisíveis. Sim, invisíveis porque as visíveis são lidas por olhares que não quer aproximações, nem encontros que marcam instantes imorríveis. Eu tenho distâncias, mas vivo perto dos sorrisos que me olham, sem distâncias.

E se você chegasse mais cedo
E trouxesse o sorriso
Que a distância escondeu na semana.

E se você chegasse mais cedo
E trouxesse aquele abraço
Que esperei a semana inteira.

E se você chegasse mais cedo
E mais cedo me recitasse Cecília
E mais cedo ainda me ouvisse cantar.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

INTRODUÇÃO AO GRITO



INTRODUÇÃO AO GRITO

Para todas as coisas há um começo. Não falo de coisas inventadas, até para inventar é preciso começos. Começados sem evidenciar que é um início. Tenho a manhã e tenho janelas e tenho pássaros e tenho louças na pia e tenho na torneira gotejares de existência. A gota germina. Brota. Ressurge imperceptível de uma torneira desgastada. Da mesa, observo a água surgindo de suas entranhas. Sobre minha cabeça há um relógio. Ele também possui seus princípios. Os ponteiros seguem obedecendo a conta dos segundos e definindo minutos. Sei que os centésimos estão neles. Meus olhos não os veem, mas meu corpo sente. Sabe que envelhece aos poucos.
As gotas seguem, despencam sem pressa. Os coágulos também possuem seus inícios. Sinto as moléculas da água se reeditando, meus olhos as absorvem. Os pássaros com seus ruicantos invadem meu silêncio, sinto, elevo-me, mas não me perco da gota. Sou testemunha de um ato. De vida e de morte.
Acho que as palavras são como as gotas. Elas rasgam nossas entranhas. Regurgitam, até virar verbo e se fazer carne. Essa mínima minúscula partícula do tempo que define nosso direito de ser, tece o instante, recorta momentos.
Respeito o momento da gota. Cada uma tem seu instante. Elas brotam. E chegam no seu ponto. E fazem do seu acontecer um acontecido parto. Golpeiam o zinco. E morrem apressadamente devagar. Em silêncio se transformam e em silêncio se desfazem. Só há barulho quando algum objeto alheio ao seu habitat cruza o seu caminho.
Esqueci de propósito uma colher em baixo da torneira só para ouvir o morrer das gotas. Atento ás intermitências, morri junto, como cada uma. Inventei um tempo para observar as gotas. Acordar com vontade de conversar com o tempo é ser gota. O tempo nunca tem tempo. E se sabe que precisa parar não se perde com coisas vãs. Perder tempo é do homem que nasce morrendo.
Como passagem contínua, penso nos encontros. Eles se formam como gotas. Como um ato empírico, penso nos espermas, nos óvulos, nos fetos e no homem. No homem que chega e no homem que vai. No que cuida e no que abandona. Já fui molécula dentro de um corpo. Chegou um momento em que foi preciso ser expulso para ser como gota nesse mundo. Ser expulso tem suas vantagens, a gente se torna mundo, ou dono dele. Um anjo caído é de tempo infinito. Não conheço o tempo dos anjos, imagino-o como o das gotas. Acho que morrem de prazos iguais.  Se a vida é perfeita, a morte também é. A beleza da existência está na ordem, mas não há existência bela se não houver uma medida de caos.
As gotas se formam delicadamente, criam um perfil e caem.
Saio das vias que levam á coagulação de um músculo de água, para me ater a beleza de ser gota formada. No instante em que ela é gota, a nenhuma maravilha se compara. Ela tem tão pouco tempo para ser bela, que faz da espera esperada, um cristal. Capaz de transformar o olhar do ser que só tem o instante para ser tudo, mas que se dispersa ouvindo gritos na introdução.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

TO'TAL ADVERBIANDO - POESIA



                     Totalmente indo
                          Absurdamente voltando
                 Razoavelmente rindo
             Inteiramente chorando
    Negligentemente saindo
        Displicentemente chegando
       Aborrecidamente pedindo
        Relaxadamente usando
       Totalmente ido
                                       Absurdamente voltado
                   Rasuradamente perdido
                                          Preocupadamente achado
                                                           Desatentamente amigo
Chateadamente largado