domingo, 1 de dezembro de 2013

18 ANOS


17 de Agosto, 1993.
O banco, uma enorme fila. O horário de almoço estreitava-se. Na demora, o cansaço, no estresse, a espera. E tinha ainda o sobrinho apressando a todo instante, pois precisava almoçar e tinha que esperá-lo. Mas tudo isso se findou num segundo quando um verde par de olhos encontrou os olhos do rapaz.
— O que posso fazer por você? Atrás de um balcão, ela disse ajuntando as mãos e com um sorriso daqueles que parece dizer: “adoro você”. – “Preciso que fique comigo” – pensou em dizer, inebriado com o carisma da moça, mas nada disse. Apenas abaixou os olhos e leu no seu crachá: SARA REGINA, ESTAGIÁRIA. Nome bonito e composto. O jeito era de quem passa por alguém e deixa um pedaço grudado para não ser esquecido. Sara Regina não passou, instalou-se em seus pensamentos. Ele entregou-lhe os documentos necessários para abrir uma conta.
— Espere um minuto. – Ela falou novamente usando o sorriso “adoro você”. Ele nada falou. Depois do tempo ali esperando, esperar um minuto perto da graciosa moça era melhor que todos os minutos vividos. Observou ela abrir gavetas, fechá-las, digitar com velocidade, fazer anotações. Vez em quando parava tudo. Demorava os olhos nele, lançava um “adoro você” em forma de um riso e voltava a fazer o seu serviço. A simpatia não era para ele, exclusiva. O seu encanto natural contagiava a todos. A antecedente senhora recebeu a mesma cordialidade. Encantada, se despediu e seguiu pelo corredor feliz com a atendente.
— Pronto moço. – falou devolvendo os papéis. – Daqui a três dias você pode vir retirar o seu cartão.
— Com quem devo falar?
— Comigo.
Cabelos longos, amarelos. Mãos finas e uma pequena rouquidão na fala. Detalhes que o rapaz guardou. Ela não tinha pressa de pronunciar as palavras. Quando alguém falava, esperava até que o silêncio indicasse o momento certo de dizer.
— Moço, a sua identidade. – disse saindo detrás do balcão ao alcance dele.
— Obrigado.
Olharam-se por alguns segundos...
— Me deixe voltar. – sorriu embaraçada – tenho muito trabalho...
— Ok, a gente se vê... Quinta-feira?!
— Ah, sim.
Mãos amigas se tocaram. O olhar também. Naquele dia perdera o almoço, mas ganhou uma razão. Sara Regina. Na quinta-feira iria sozinho, sem a ajuda do sobrinho, quem sabe ficaria um pouco mais à vontade ao redor daquele encanto?
A tarde que passava sem pressa não apaziguava os seus pensamentos, que velozes insistiam na imagem verde de um olhar e num sorriso que dizia “adoro você”. Por várias vezes tentou afastá-la dos seus pensamentos. Aquilo tinha jeito de sonho e ele não estava preparado para sonhar um sonho daquele. Cansado de brigar com os pensamentos, deixou que sonhasse o seu coração. “No final, a gente se prende mais aos sonhos que na realidade deles”. Refletiu. Toda emoção depois de um tempo deixa de existir, ou perde a força do primeiro encanto.
Quando o dia chegou ao final de uma quarta-feira sem pressa, ele lembrou que precisava comprar uma gravata, pois a que tinha não combinava com a roupa que usaria na formatura do seu sobrinho.

 19 de agosto de 1993.
Poucas pessoas havia no banco quando chegou a vez do rapaz. 
— Oi. – Falou ainda de pé. – Vim retirar o meu cartão. – sentou-se.
— Ah, sim. – Respondeu com aquele sorriso. – Está aqui. – Proferiu com brandura depois de retirá-lo do meio de alguns outros documentos.
— Tão rápido assim?
— Sabia que viria.
— Por quê?
— Sou nova aqui, mas de alguns rostos consigo lembrar, o seu, por exemplo, não esqueci. – Sorriu.
— Não sabia dessa minha qualidade.
— Qual?! – Indagou, mirando o rapaz com os olhos semicerrados.
— Um rosto inesquecível.
— Ah! – Sorriu abanando a mão. – É um jeito de dizer.
— Obrigado. Ah! Também não vou esquecer seu rosto.
Ela disparou uma risada.
— Bobo! – Falou mirando o rapaz, e sem mudar a direção dos olhos, anunciou: – Próximo!
Quando deixou o banco, despertou nele o desejo de voltar. Não disseram muitas palavras e, bem por isso, compreenderam a linguagem dos olhos. Ela se lembrou dele, isso já era um bom começo. Quando os corações se apreciam, os desejos recomendam os caminhos.
Depois que atendeu o último cliente e o banco já havia fechado, ela verificou a ficha do rapaz. — João?! – Riu. – Ele tem nome antigo! – Falou a si mesma. Os caminhos não eram distantes, nem as possibilidades, nem as certezas. Sorriu ao descobrir que moravam na mesma rua, continentes opostos.
Dezenove de setembro daquele ano. Somente quando ele foi cantar a última música é que percebeu, ela estava na igreja ouvindo a missa. Ele cantou com os olhos fechados e, para não errar, permaneceu com eles fechados. Poderia se desligar da música e errar o tempo. Será que depois de alguns dias ela ainda se lembrava dele? Indagou-se por dentro.
Ele enrolava os cabos quando a viu se despedindo na porta. Não correu, mas acelerou os passos de tal forma que parecia correr.
— Oi! – Disse estendendo a mão. – Lembra-se de mim?
— Sim. Do banco, né?
— Sim. – Pausa. – Não sabia que você frequentava essa igreja...
— Ah, eu frequento aquela no final dessa rua – disse apontando o lado. – A minha mãe frequenta aqui.
— Quem é a sua mãe?
— Aquela. – Apontou a dona Maria, a mulher que dirigia a missa. Ele sorriu.
— Você mora aqui por perto?
— Na mesma rua em que você mora, só que láááá... na ponta. – Fez um largo gesto para indicar a distância oposta.
— Como sabe a rua que eu moro?
— Pelos documentos do banco.
Sorriram.

Tudo muda. Precisamos estar atentos às mudanças e nos adaptar a elas. Ela não tinha sonhos diferentes. Toda mulher sonha com um grande amor, pensa em se casar um dia e cogita ter filhos. Prestes a completar dezoito anos, nunca namorara. Dizia que namoraria para casar e só depois dos dezoito. Um dia depois do seu aniversário, mas só depois dos dezoito, brincava. Vivia em paz com os seus sentimentos. Driblando os interesses dos rapazes, sentia-se segura.
17 de outubro, 1993.
João não esperava encontrá-la na festa. Como ela, foram convidados pelo anfitrião, mas não conheciam ninguém. Naquela noite ele conheceu Selma, irmã de Sara, que se embrenhou no meio dos convidados esquecendo-se dela. Sozinhos, afastaram-se para conversar à distância em que podiam ser vistos. A luz que emanava da janela iluminava o banco onde estavam e a música não cobria o som da conversa. Sentados a distância que cabia alguém entre eles, se conheceram.
O coração costuma seguir por caminhos que os pés não imaginaram caminhar. Ela percebeu isso quando ele pousou a sua mão sobre a dela. Ele entendeu quando ela disse não querer namorar, mas mesmo assim insistiu. Quem sabe mudaria de ideia? Aceitou. Mas beijos, só depois dos dezoito. Ele concordou. Sabia que faltava um mês, e que se não aceitasse as regras, poderia perder a oportunidade de ficar perto dela. Ainda bem que o tempo vai moldando o coração e a gente vai anotando o que é lindo. Tinha aprendido com os erros dos outros. Mas, como mostrar aos outros que estavam namorando? O namoro precisava de proteção. Ela entendeu e, como estava apaixonada, quando saíam, se davam as mãos. Não são as circunstancias que mudam um coração, mas a forma de conviver com elas.
Na manhã do dia 3 de dezembro não houve sol. À tarde, uma garoa fina perseverou por algumas horas, intercalada por acanhados jorros de sol. Ele foi buscá-la no serviço a fim de atrasá-la um pouco para que recebesse uma surpresa. Ela mostrou a ele alguns presentes que ganhara dos colegas de serviço. Deu ênfase ao mostrar o livro “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva, que ela tinha curiosidade em ler e que ganhara do gerente do banco.
Em cima do bolo não havia velas, as velas estavam apagadas ao lado. Depois que os amigos cantaram, ela acendeu-as. Quando acenderam, as chamas propagaram formando o número 18. Nas festas de aniversário costumam-se apagar as velas, mas não seria melhor acendê-las? Afinal, precisamos da luz para clarear a vida e o discernimento, para recebermos os dias que vêm e que não sabemos como serão.
Depois que os amigos foram embora eles sentaram no banco frente à casa dela. Ele tirou do bolso um pequenino embrulho e entregou a ela. O presente, uma corrente com um pingente em forma de um coração. Ela sorriu e por alguns segundos observou o pequeno coração de ouro.   
— Obrigado pela surpresa.
— Não fui eu que preparei, foram a sua irmã e a sua mãe.
Ela observou novamente a corrente, deu um sorriso e pediu que ele a colocasse em seu pescoço.
— Estava pensando comprar uma exatamente assim. Você me deu o seu coração. – sorriu. Estava feliz e, por se sentir assim, queria tantas coisas, mas escolheu aquele momento para ser único em sua vida. É difícil pensar nas palavras quando o amor chega. Os gestos falam por tantas coisas.
— Posso fazer uma pergunta?
— Sim.
— Na verdade é um pedido.
— Tudo bem.
— Quer namorar comigo? – Ela riu.
— Você já me fez esse pedido e eu aceitei, lembra?
Ele sorriu. Sabendo que tinha mantido o protocolo. As certezas se uniram aos sonhos dela. Aconteceu o primeiro beijo. Não fora um dia depois como dizia. Os desejos têm pressa. Os dois corações estavam ali acentuando a urgência deles. Seus planos se realizavam. Ele era lindo, rapaz de respeito e, como ela, se preocupava com o futuro.
— Se você fez o pedido, qual é a pergunta?!
— Por tudo que conversamos, eu cheguei à conclusão de que preciso... – Procurou as palavras – De alguém como você o tempo todo ao meu lado.
— Sei.
Seus olhos procuraram os dele. Os segundos seguidos encontraram o silêncio. Com um movimento de cabeça ela fez um “e daí” como gesto.
— Quer se casar comigo?
Avermelhou-se. Acanhada, segurou as mãos trêmulas do rapaz. Ela queria casar-se no mês de maio, porque dizem ser o mês das noivas. Tudo estava indo rápido demais. Quando o amor chega, traz junto incertezas, que duram um tempo incerto.
Quatro dias depois. Oito de dezembro.
— A formatura é no dia dezessete de dezembro. – Caio falou ao seu tio com um calendário nas mãos. – É numa sexta feira e, no sábado à tarde, marcamos um jogo de futebol no ginásio, vamos?
— Não vou poder, tenho um ensaio na igreja.
— Não pode faltar?
— Não.
— Que pena, ia ser legal. E a Sara, vai ao ensaio também?
— No sábado, eles vão se reunir numa chácara. Revelação do amigo secreto com o pessoal do banco. Vamos nos ver à noite na casa dela.
— Ah, será o dia do seu noivado, já estava esquecendo.
— Sim e, não vai dizer que desencalhei com apenas vinte e dois anos.
— Eu não tô dizendo nada...
A ansiedade caminhava nele sem deixá-lo ver o horizonte. No final do dia, o sol estava cercado por nuvens escuras. A luz no meio, separava as camadas e era como tela de cinema, mas ele nada via. Queria olhar e estava se olhando por dentro. A felicidade o trouxera até ali e tinha data marcada, Sábado, 18 de Dezembro, 1993. Iam ficar noivos, em maio se casariam.
João acabara de chegar do ensaio quando o telefone tocou. Do hospital, o seu cunhado avisara, Caio havia batido a cabeça ao cair. Carecia que ele ficasse com o sobrinho por algumas horas, pois, precisava mover alguns documentos para levá-lo para fora da cidade.
A noite chegara e, na sala de emergência, acompanhava o sobrinho que, dormindo, aguardava as observações médicas. Preocupava-se com o sobrinho, mas não tirava da cabeça que logo mais à noite ficaria noivo. Por volta das 18 horas alguém entrou gritando no corredor.
— Emergência! Cadê a emergência? – O homem não continha o desespero.
— O que foi, moço? – Falou a única enfermeira por ali naquele momento.
— Tem duas pessoas mortas ali e dois feridos! – Disse apontando para o carro às suas costas. – Ficou um pra trás, preso nas ferragens, já sem vida.
Seres humanos são estranhos, ninguém quer sofrer um acidente, mas querem estar perto para ver, já dizia um psicólogo. A enfermeira puxou as macas e, no desespero, clamou:
— Você aí, ajuda aqui!
João com rapidez estendeu os lençóis. Sob o olhar de muitas pessoas, ajudou a colocar os mortos nas macas e junto com outro rapaz levaram ao necrotério. Ao colocá-los nas macas, viu um corpo de mulher com o rosto desfigurado e um jovem com a cabeça amolgada, ambos irreconhecíveis. Quando voltou, a enfermeira já tinha se ocupado dos feridos e, já com os médicos, cuidavam deles.
Acidente na BR. O motorista embriagado, em alta velocidade, vinha à cidade deixar algumas pessoas, pois, precisava voltar e fazer uma segunda viagem, mas se chocou com outro veículo.
João passou a noite ao lado do sobrinho, que não apresentava escoriações, mas precisava viajar, observações médicas. Quando tudo se acalmou vieram avisá-lo no hospital, não haveria noivado, Sara estava passando mal e iam transferir a cerimônia para o domingo. O rapaz viu estranheza no recado, estava tudo preparado. “Talvez comovidos com o acidente do Caio, resolveram mudar a data do noivado”. Refletiu, cogitando ir vê-la quando deixasse o hospital.
O domingo do dia 19 de dezembro acordara cinzento e nunca mais mudou de cor. Pelo vidro da janela na sala de emergência observou o céu carregado de cinza. João ficou sabendo que o cinza ficaria para sempre em sua vida quando lhe contaram. A moça com o rosto desfigurado e irreconhecível que ele havia levado ao necrotério tinha nome. Era Sara Regina. Havia duas viagens. Um colega seu de trabalho se dispôs a trazer um grupo de pessoas e em seguida retornaria para buscar os outros. Ela estava na primeira viagem porque precisava se preparar para a festa do seu noivado.  
Dezoito de dezembro de mil novecentos e noventa e três. Às 18 horas. Morreram os planos. Morreu a espera, morreram os anseios, morreram os sonhos... Expirou o amor.  
Depois que tudo aconteceu, culparam o destino e o tempo que nele se desfez ao levar para sempre a moça. Seria mesmo o destino? João compreendera que não. De tudo, ficou o silêncio. O silêncio de um dia cinza que não amanheceu. O silêncio de um amor que se foi de repente e o silêncio de um jovem que busca em seus dias compreender o tempo de um amor que chega sem perceber, mas que morre aos dezoito anos. O tempo tem seu destino, a vida tem os seus planos e o destino o seu tempo, mas por mais que se viva da forma certa, a vida caminha o tempo todo, à margem da irresponsabilidade de alguém.

sábado, 23 de novembro de 2013

QUASE TODOS OS GRITOS.

FOTO DE REPRODUÇÃO
 

Ruas velhas, lembranças novas.
—!
Há dias em que tudo se parece. Não se acha o que se busca e os olhos encontram coisas que passam apressadas, depressa demais para se ter um reconhecimento qualquer.
—?!...
Janelas que se abrem no alto, pés que tocam o chão ruborizado de um cotidiano sem rumo. Um homem na calçada tece a arte, o que caminha pela calçada tece a vida, desconectada do mundo. Ambos se procuram.
O vento agita as árvores, os pensamentos agitam o homem. A existência agita o homem que se parece com a árvore. Fixos, se movem com os fenômenos da vida. Díspares, necessitam da terra. Carecem do ar e dos ventos. Não os ventos que arrastam coisas, mas um vento brando que parece sem rumo, porém, faz da sua missão a direção.
E se o agora começasse agora? E agora mesmo a surpresa me surpreendesse? O ontem não seria mais ontem. As emoções amanhecidas seriam novas; as pessoas conhecidas seriam novas, as desconhecidas também.
— ...
Se o agora começasse agora eu seria de qualquer jeito. Ainda tenho dores do ontem. Dores lembradas. Cheias de floreios emancipados. Se o agora começasse agora, agora mesmo me buscaria. Repreendia-me. Articulando com fala de monges.
— Meus gritos são baixos.
—?!
— Altas são as minhas indagações insurgentes.
—?
— Tenho tantos gritos. Eles se embrenham por caminhos que convencem os olhos a arrastar os pés, indignados.
—...
As ruas são velhas, o meu caminhar é novo. Nas vitrines, novidades. Novidades também no pensar. Observo dois livros, mas só posso comprar um. Dentro de mim há dois diálogos. Um se expressa com palavras curtas. — An?! Sim! É? Hum... — Deixo os livros e compro um celular: as possibilidades machucam, mas são ótimas para resolver problemas.




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

TALVEZ EU FIQUE SONHANDO



Talvez eu fique sonhando...Talvez eu queira ser simplesmente, eu. Talvez eu queira voltar ao passado... Fugir do futuro.

Ficar no presente, é o meu rumo. Talvez eu queira esquecer... Esquecer de lembrar... Talvez eu queira simplesmente sentar numa janela

E sorrindo, ver o tempo passar...  

terça-feira, 12 de novembro de 2013

À DISTÂNCIA DO ONTEM.

Houve um tempo em que mãos estendidas
Expressavam ajuda
Houve um tempo
Nem faz tanto tempo assim

Era ontem
As novidades não ultrapassavam as pessoas
Nem as possibilidades as impediam de serem vistas.

Houve um tempo em que se estendiam as mãos
Que se abriam um sorriso
Que se olhavam nos olhos
Que se ouviam devagar
Que os diálogos não tinham pressa
Que um olhar podia dizer muito
Que a consciência era um valor
Que a ética era um sentimento.

Era ontem
As novidades não ultrapassavam as pessoas
Nem as possibilidades as impediam de serem vistas.

Houve um tempo em que mãos estendidas
Significava tantas coisas
Podia dizer, como vai?
Podia dizer, como estás?
Podia dizer:
Levanta!
Eu te ajudo!
Confia em mim!

Houve um tempo...
Era ontem...
Mãos estendidas...
Novidades...
Possibilidades...
Caraca, Velho!
Que antigo!


domingo, 10 de novembro de 2013

O ENCONTRO

                                                                                                         
                                                                                                                     FOTO DE REPRODUÇÃO
  Em meio a tantos sorrisos e vozes altas, um fitar de olhos pairava em minha direção. Um olhar que não olhava, mas que me via. Meu despertar foi de encontro ao movimento da visão. O tempo se consumiu, em segundos se refez no que era sério, penetrante, fugaz, mas que não irradiava medo. O sol do meio dia rompia árvores de longas sombras, os estudantes corriam de um lado a outro com a ansiedade de sempre e professores e alunos se misturavam ao se assentarem em banquetas de cimento tendo a suas disposições mesas de concreto. Por que o meu medo? Já não andei bastante no caminho do ensino? Não. Houve mudanças. O verbo aprender não indica o tempo, nem recomenda um momento exato. Aprender é instruir-se, conhecer um pouco mais do tudo é apreciar o nada. O meu coração bateu forte enquanto o sinal durou, depois que parou, cessou também a aceleração. Dizem que o medo paralisa, a mim não paralisou, mas a mistura da coragem e o medo provocaram um terremoto, meus joelhos confessaram o tremor. Andei em direção à sala, confesso, meio sem direção.
            A primeira conversa foi de uma rara calma, acho que não encantei, mas convenci. Trinta nomes, rostos desconhecidos. A expectativa desvirtua o ser e faz soma de dois: bom + bom = agradável. Bom, +, ruim = caos na sala.

            O sinal soou como uma trombeta, o meu respirar se desfez como um balão de ar. Final da aula. Lugar novo é estranho, tem muita coisa para ver. Digo estranho, pois, provoca emoção despercebida, desatenta, que quando desperta, não acrescenta.

Um velho num quadro acrescentou.

Abri os olhos, sorri da minha burrice, nunca havia lido Machado de Assis.

            A gravura na parede revelava minhas tolices. Não tive culpa por ser tolo. Machado não é uma obrigação, é uma consciência. Isso faltou a mim e ao professor que me forçava ler quando tomei gosto por leitura. Herculano ficou gravado na minha memória, mas hoje eu o troquei pela beleza de um Dom Casmurro. Penso em como foram os meus dias com Herculano. Os gibis da Mônica, do tio patinhas e os de bang-bang. Livros espíritas, filosofia, teologia e psicologia. Aprofundei-me nos livros de autoajuda. Queria buscar segurança em mim, na verdade queria gritar: sai de mim Herculano! Meu amor por livros não lhe pertence.
Hoje eu comprei um Machado, não pretendo cortar árvores, quero cortar de mim o amor que Herculano quis impor ao apresentar Dom Casmurro. Essa coisa de amor demais apaga o encanto. Amor para ser amor precisa apresentar graça, lisonjas, enlaçar doçuras, conquistar. Depois mostra a verdade, que para mim tem seu próprio tempo para existir. 
            O olhar que não me olhava, mas que me via, voltou a me encontrar. Com visão demorada esbarrei naqueles olhos como quem não queria ver. A agitação dos estudantes voltou a ganhar formas, com mais pessoas, os que eram e também os que não eram. A turma “A” se comportou bem. O programa educacional ganhou seu primeiro dia, eu ganhei certezas, certas para um recomeço.
Pouco a pouco a multidão se dissolvia. Do grupo ficaram alguns jovens, alguns professores e o diretor. De costas para mim, os cabelos da cor da noite ausente da luz da lua, cobriam-lhe os ombros. O tempo desandou. Andou com as horas. A sirene soou e a multidão dos que não eram, inundou o pátio. Senti saudades, pensei no quase velho que sou hoje. Uma professora saiu aos gritos praguejando um adolescente que fugiu da sua justiça. Pediu-me para que repreendesse o menino. Não podia, as minhas lembranças não permitiam, fiz pior que o garoto na mesma idade. Consciência pesada omite a ordem.
 Os jovens que estavam sentados levantaram-se fazendo menção de ir embora. E aqueles olhos que me conhecia, não de fala, mas de olhar, voltou a me inundar. Olhos que falam por silêncios, esperam encontrar corpos que desmerecem as palavras. Hevelin é cativante, de beleza rara e doçura nos gestos, de rosto meigo e olhar singelo, mas que não revela facilmente os seus mistérios. Eu precisava de amizades, ela buscava um amigo. Ambos descobertos num tempo que não era nosso, mas que existiu ali, por um olhar que não me olhava, mas que me via.  

terça-feira, 5 de novembro de 2013

FALTA

                                            FOTO DE REPRODUÇÃO
A gente cantou as canções que queria
Falou dos segredos que devia
Mas não se olhou, como se devia olhar
A gente escreveu todas as poesias.Escolheu as palavras enquanto ria. Mas não se olhou
Como se devia olhar
É que o tempo morria ligeiro
E levava de nós todo querer
De querer se querer.
É que o tempo movia de leve
Escondendo de nós todo o querer
De querer se querer.

domingo, 3 de novembro de 2013

O AMIGO ERA EU.

                                                                                           
                                                                                                              FOTO DE REPRODUÇÃO
O homem caminhava sozinho. Num banco da praça, um jornal abandonado. Naquele fim de tarde não chovera, e nem vento forte fizera. Ainda havia sol. As nuvens se ajuntavam no céu. A escuridão ameaçava chegar. Poucas eram as pessoas que ali estavam. Indagações dilaceravam o coração do homem que, no momento, tinha a mente cansada, os sentimentos machucados e os pés enfadados por caminhar sem rumo. Vendo o banco, sentou-se. Foi direto ao jornal.
“Não me atrevo mais aos versos, quero mostrar os meus reversos. Mudar, a vida concedeu. Eu perto de mim. Perto de mim como a roupa grudada, mas o amigo era eu.
Não entristeço o mundo tocando canções que me arremetem ao tempo. As minhas conclusões, descritas como um filme que agrada, desagradam. Um falso argumento, a vida concedeu. Eu comigo. Perto de mim, as pessoas sorriam, mas o amigo era eu.
Não reclamo ao coração a falta de um tempo austero, sem considerar que o NÃO é um SIM quando diz não. Dentro de mim, o que não era meu, estava comigo. Eu comigo. Pessoas me queriam, mas o amigo era eu.
Eu estava com pressa. O tempo destempava com pressa. Os diálogos dialogavam com pressa. Os olhares olhavam com pressa. A vida estava devagar, mas o devagar tinha pressa. Com pressa, me encontro ausente. Num tempo que não é meu. Eu estou sempre comigo, mas o amigo sou eu.
Vejo carros trocando pressas; sorrisos esboçando pressas; compreensões planejando pressas; incompreensões projetando pressas. Eu, com pressa, estou aqui. Como guerra que não acaba ou como música que não agrada. Estou aqui como quem deseja estar. As pessoas me olham. A gente sorri. Alegria, a vida me concedeu. Estou perto de mim, mas o amigo sou eu. 
O existir se arrasta. Segue sem rumo um discurso calvo. Busca um tempo que não é mais seu. Tão perto de mim, eu estava. Perto de mim? Sim, estou. Bons tempos a vida concedeu. Muitos comigo, mas o amigo sou eu”.
O homem não mudou de página. O jornal estava amassado. Provavelmente alguém mais o folheou e também não conseguiu mudar de página.

— Por que as pessoas não têm tempo se não criam nada? – indagou. Por uma estranha razão ele pensou na história de Narciso contada por Oscar Wilde. – Se mudassem os espelhos, a vida teria pessoas mais disponíveis, certamente. – Ponderou.