domingo, 9 de março de 2014

ENTREVISTA COM CLARICE LISPECTOR


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."




Clarice Lispector

Esta importante entrevista com a nossa Clarice Lispector foi apresentada pelo programa Panorama Especial e transmitida pela TV Cultura em 1977. Através desse encontro com Clarice nós percebemos o quanto Ela é natural e existencialista ao tratar do Homem e de si mesma, ela consegue expor em seus trabalhos todos esses sentimentos que fazem parte da vida do sujeito como o Medo, Angústia, Desprezo, dentre outros afirmados pela própria Clarice Lispector.

Enviado em 31/07/2011
*Fonte do Vídeo: Canal israelbarros
**Editado por André Bispo através do Editor de Vídeos do YouTube.

CLARICIANDO O LISPECTADOR
(Nill Cruz)

Acho que, Meio Clarice, Ando meio Lispector.


Dentro de um eu Buscando alguém 


Que se Claricia, Que se Lispectoria

Que se encontra Que se perde

Que tem nas procuras
A esperança de Chegar
Como quem nunca chega
Quando busca a si mesmo.


quarta-feira, 5 de março de 2014

CONTO ALFABÉTICO


AMANHECER AMARELO ACALMA.

Assim, antes, aquele Amanhecer Amarelo amanhecia alegre.
Beijando borboletas, beliscando o Bem.
Cumpria cada centímetro caminhado.
Desfazia dores, desautomatizava o desumano.
Encolhia em espaços estreitos, estendia-se nos espaços espaçosos.
Feito flor, fortalecia a felicidade.
Grudava Graças, guiava Gostos, gostava de gostar.
Habilitava o hoje, harmonizava os homens, honrava a honestidade.
Idealizava a igualdade, incentivava as ideias inéditas...
Jubilava-se justificando a justiça.
Kafka, Kant, Kandinsky, Karamazov...
Laçava-o, levando-o a lugares longes.
Machado, Manoel, MPB massageavam-lhe a mente.
Não negava navegar no necessário:
Observar os originais.
Padecia, pensando parar os problemas políticos. 
Queria quebrar as quadrilhas, 
Resolver o racismo radicalmente,
Sonhar sem sofrer segregações,
Trabalhar o talento, todo o tempo,
Ultrapassar o universo.
Viu verdejar a Vida,
Xiscando o Xis.
Words… the windows of world?
Yes. Yellow,
Zen.


SINOPSE

DEPOIS DE ONTEM... UM NOVO AMANHECER.


Allan é um músico que se perdeu de rumo em meio ao turbilhão do sucesso e se encontra estacionado na pequena cidade de Maresia. Em meio a reflexões sobre si e procurando nos livros as respostas para seus fantasmas do passado, ele se depara com um livro que mudará sua vida e suas perspectivas. Ao mesmo tempo, uma misteriosa mulher chamada Jade lhe oferece uma amizade profunda. Mas Allan quer mais. Mesmo depois de terem iniciado um relacionamento, os passados de ambos trazem à tona dificuldades de entrega que colocam o amor que sentem em risco. Jade é o amor de sua vida, mas Allan precisa aprender a fazer concessões e saber muito mais sobre si mesmo antes de dar espaço ao amor, e Jade também precisa reaprender a não ter medo de amar. O tempo, o poder das palavras, pessoas inesquecíveis e o poder do amor dão o tom a este romance, que fala feito música ao coração.

segunda-feira, 3 de março de 2014

SE UM CACHORRO FOSSE SEU PROFESSOR (Anônimo)




Você aprenderia coisas assim:
Quando alguém que você ama chega em casa,
corra ao seu encontro.
Nunca perca uma oportunidade de ir passear.
Permita-se experimentar
o ar fresco do vento no seu rosto.
Mostre aos outros que
estão invadindo o seu território.
Tire uma sonequinha no meio do dia
e espreguice antes de levantar.
Corra, pule e brinque todos os dias.
Tente se dar bem com o próximo
e deixe as pessoas te tocarem.
Não morda quando um simples
rosnado resolve a situação.
Em dias quentes, pare e role na grama,
beba bastante líquidos
e deite debaixo da sombra de uma árvore.
Quando você estiver feliz,
dance e balance todo o seu corpo.
Não importa quantas vezes o outro te magoa,
não se sinta culpado...
volte e faça as pazes novamente.
Aproveite o prazer de uma longa caminhada.
Se alimente com gosto e entusiasmo.
Coma só o suficiente.
Seja leal.
Nunca pretenda ser o que você não é.
Se você quer se deitar embaixo da terra,
cave fundo até conseguir.
E o MAIS importante de tudo...
Quando alguém estiver nervoso ou triste,
fique em silêncio, fique por perto
e mostre que você está ali para confortar.


A amizade verdadeira não aceita imitações!!!

sábado, 1 de março de 2014

ADULTA INFÂNCIA



            Recado estranho: “Du’Marques, eu ainda kurto Suddenly, viu?”. No Facebook a minha postagem anotava três dias, mas o comentário, recente. Na foto uma borboleta azul trazia o nome Anny Lee. Os álbuns não abriam e eu fiquei preso às indagações. Solicitei uma amizade. Aos trinta e dois anos ainda não conhecia alguém com esse nome, mas conhecia Suddenly, minha canção favorita na adolescência. Eu postara o vídeo depois de ver Billi Ocean cantando na TV. Sou pianista e há dez anos vivo da minha música. Nunca toquei a canção da minha infância.
Verdes tempos, com dias dourados e noites prateadas. Um céu que sorria de dia e de noite contava poesia. O vento fazia música. Infância, para lá é que me transporto. Subo nas amoreiras, corro pelo quintal de folhas varridas, mergulho nos rios de águas rasas, escuras.  Às tardes de quase todos os dias, o futebol de rua. Descalços, chutávamos bolas de meias. Na brincadeira de esconde-esconde eu escondia com ela. Por um tempo ninguém nos achava. A escuridão nos cobria. Ficávamos colados, invisíveis ao pé da árvore do vizinho. Nas estações do ano tínhamos tempo para olhar a lua que nos vigiava com um riso prateado.
Na primavera dos meus treze anos, acordei com o sol esquentando o meu sono. Despontei na sala como um zumbi, depois de passar pelo corredor de paredes com tábuas na horizontal. A minha altura, o olhar tímido e voz com som de poesia. Ana Laura me emprestava a beleza da manhã através de um sorriso. Parada, em pé na porta entre a sala e a cozinha, me viu despertar. Disse que pretendia me surpreender e observar se era verdade que os meninos não acordam de mau humor. Eu bem sabia que ela estava indo embora. Embora de mim, da nossa pequena cidade, da nossa infância, dos nossos vinis, se retirando dos nossos momentos como o tempo que não espera voltar. Ela se foi. Demorei para acordar, compreender a ausência e a conviver comigo. Demorei em Suddenly até que a canção me esqueceu. Ainda ouço Billi Ocean, mas fujo de Suddenly, o meu coração não aprendeu a voltar nessas saudades. Os nossos vinis permaneceram por algum tempo na sala, agora ficam guardados em algum lugar em mim.
Dias desses voltei. Na TV Billi Ocean deslizava sua voz entre os acordes de um violão. A canção me levou ao menino cujo apenas metade se tornara adulto. Por uma estranha razão ouvi Suddenly por inteira. Tomado de lembranças, cheio de saudades, postei um vídeo. Queria dividir com o mundo os meus sentimentos. Anny Lee aceitou o meu pedido de amizade. Na linha do tempo um recado ofereceu luz ao meu coração:

Encontrados por uma muzk, rsrrsrs. Sou a Ana Laura, lembra? Já sou mãe, tenho um filho de 5 anos, mas to solteira a 4. Já ñ posso + brinkr de esconde-esconde, rsrrs, tenho 31 anos. Kkkk. Suddenly! Gosto tanto dessa canção que a adotei em meu nome. Ly representa o som da última vogal, por isso, Anny Lee. Eu estava no teu show quando vc stv aki, to flz por te axar, Bjo”.

Há anos nos procurávamos, mas pelos nomes certos.
 Sento-me na cadeira vazia que dá visão à pista. O aeroporto está quase cheio. Falta meia hora para o avião chegar. Não sei quem eu espero: uma promotora de eventos ou Ana Laura, agora uma mulher mãe, empresária autônoma que curte Suddenly. Desligo-me do tempo olhando no notebook as fotografias dela. Os minutos avançam e os meus olhos são tomados de encantos. Ela abre um sorriso quando me vê. Nossos corpos se encontram num abraço demorado.
Ela entra no meu carro. Nos nossos olhos, encanto; no som do carro, Suddenly.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

PENSEI QUE IA PENSAR...



Hoje eu pensei que ia pensar, mas não pensei nada. Observei sorrisos, demorei nos olhares, segui linhas gestuais, mas nada. Num momento em que uma voz grifou a minha atenção, pensei que ia pensar, mas nada. Analisei como descrever o som daquela voz, mas no som não havia nada. E aquele senhor com uma bengala nas mãos entrando no ônibus? Sua dificul’idade, suas pernas trêmulas, seus passos fracos... Sua solidão... Sua desatualização do mundo dos filhos... Eu pensei que ia pensar. Do nada veio o nada nadando sem me deixar pensar. Caminhei por caminhos caminhados. Plantas sorriam, ventos cantavam, o sol escrevia poesia e o papel eram as nuvens. Coisas passavam, cores me tomavam, casas me asilavam e eu pensei que ia pensar, mas não pensei nada. Num beco, crianças cheirando crack, no bar, adultos cheirando a álcool. Na esquina seguinte, políticos num palanque discorriam as dores do mundo. Num canto da praça, humanos dormiam sem teto. No estádio, pessoas gritavam alto. Alto num telão na praça adiante, um pastor ocupava um microfone. As suas palavras me convenceram. Eu me inscrevi mentalmente na oferta de milagres, queria pensar, mas não pensei nada. E a menina grávida aos treze anos que veio me apresentar a sua música preferida? E aquele adolescente que não queria saber de escolas, que não aceitava regras, que se deixou ser educado pelos filmes de Hollywood? E a liberdade sem responsabilidade dos pais? A felicidade sem afetos nos filhos?   Eu pensei que ia pensar, mas, não pensei nada. O nada estava cheio, o cheio estava vazio e o vazio indagava o porquê das artes que não desautomatizam os homens. Tudo é tão normal que o normal já não é mais normal. Pensar é imoral, pensar o profundo é anormal. Eu fico com o meu vazio cheio de vazios e de indagações.
Hoje, eu pensei que ia pensar, mas não pensei nada.
 


domingo, 9 de fevereiro de 2014

F E L I 'Z' I D A D E S


FELI‘Z’IDADES

Vejo as aves bandoarem no céu. Juntas, são como as nuvens brancas. Pergunto-me se são as mesmas quando elas se despedem das minhas vistas e se escondem no infinito.
Lembro-me quando elas desciam do céu com o propósito de catar a comida que o meu pai deixava. Todas as manhãs, eu corria até a janela, ajeitava a cadeira vermelha a fim de ficar mais alto, debruçava ali e os meus olhos ganhavam o quintal inteiro. As aves chegavam aos poucos, nunca em bando completo. Depois que se alimentavam, com um impulso ligeiro alçavam voo e se iam de bando único. Eu chegava à janela com os anseios de criança, a passos rápidos, com medo de perder aquele espetáculo. Depois que os pássaros se iam, lentamente eu deixava a janela. Às vezes, sem deixar a janela, eu fechava os olhos e voava seguindo-os sem pensar na direção. Para onde iam os pássaros quando terminavam o banquete? Será que voltavam às suas casas? Eu voltava pra mim. Enchia-me de silêncios e ficava a procurar as respostas que não vinham. Os livros provocavam ainda mais as minhas indagações, cujas respostas estavam em meus silêncios. Como poderia alguém dar a volta ao mundo em oitenta dias? O mundo era grande para mim, mas pequeno para o Julio Verne. Virava-se um capítulo e pronto, um lugar novo dentro de mim se instalava, instigando a minha imaginação. Dos dez aos quinze anos, voei em balões imaginários. Não gosto de pipas. Elas voam aprisionadas aos seus donos. Os aviões voam conduzidos por homens e os pássaros? Esses voam porque são donos de si mesmos.  
Os primeiros voos de Santos Dumont não foram ao redor da Torre Eiffel, mas em torno de si mesmo. Todo homem deseja voar, só ainda não aprendeu a preparar as asas. Aos pássaros o voo era simples, bastava mover as asas e com o um impulso ligeiro ganhavam o céu, rabiscando o meu ser.
Que a felicidade é um recorte do mundo, hoje eu sei. Apenas Eu sinto a dimensão do crepúsculo acariciando os meus olhos e criando cores dentro de mim.
 Lembro quando sem perceber troquei a orquestra dos pássaros por um olhar. Meus quinze anos foram despertos por um par de olhos que me mirava, porém o olhar não me avistava. No aeroporto Samantha Reyes me olhava sorrindo. Cheio de encanto eu também sorria. Percebi no instante seguinte que o riso dela me ultrapassava, celebrando a chegada dos seus músicos. Samantha Reyes sentou-se ao meu lado dentro do avião e nunca mais saiu de mim. Nossos cinco anos de namoro findaram-se quando fui servir a Aeronáutica. Dos vinte aos trinta anos, me tornei uma pessoa de sentimentos fáceis. Gastei-os me apaixonando por qualquer rosto que exalasse encanto. Em cada despertar do sol, alguém tomava o meu ser por completo. As estrelas e os ventos nunca fotografaram um mesmo rosto, nem testemunharam emoções repetidas. A idade da razão me encontrou aos trinta e cinco anos. Com destino a Madri, Samantha Reyes tomou o voo no meu voo. Depois de cinco anos como piloto foi a primeira vez em que voamos juntos. No discurso “Diálogo e Existência”, Martin Buber aponta que “entre o Eu e o Tu nasce uma terceira pessoa, o Nós”. Em Madri Eu ia ter folga, ela faria um show e nós nos encontraríamos para jantar.
A cantora subiu ao palco às 22h30min. No meio da multidão eu cantei todas as músicas como fã que adora o ídolo.
Vejo as aves bandoarem no céu. Juntas, são como as nuvens brancas que me levam ao passado. Pergunto-me se são as mesmas aves quando elas se despedem das minhas vistas e se escondem no infinito do meu tempo. Assim como eu, acho que não são as mesmas. Estou sentado na cadeira vermelha, minha mãe a guardou para mim. Através da janela observo os pássaros gorjeando e catando a comida. Ouço um leve som de piano. Às seis horas da manhã Samantha Reyes trabalha incansavelmente numa nova canção. Nosso casal de filhos ainda dorme. Meus pais ainda não saíram do quarto. Como um menino eu observo os pássaros. Os meus voos atualmente são em função de uma agenda de shows, mas ainda sei voar, como homem e como menino que segue os pássaros, sorrindo em todos os tempos.